Paulo Parreira, especialista em comportamento animal e diretor do curso de Zootecnia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), alerta para a artimanha dos pequenos e diz que, pelos casos que acompanha, quem cuida são sempre os mesmos, os pais. Não adianta pensar que a criança vai ajudar. Até vai em alguns momentos, mas uma hora ela enjoa, além de não ter noção das reponsabilidades que isso envolve. O cão é da família toda, e todos devem estar cientes de que sua rotina vai ser alterada e que terão mais responsabilidades”, comenta.
A advogada Ingrid Busato conhece muito bem essa situação, pois foi assim que se sentiu quando suas filhas começaram a lutar pelo “direito ao cão”. Mãe da Valentina, 11 anos, Manuela, 10 e Laura, 6, ela conta que ouviu promessas como trocar os presentes de Natal, aniversário e ovos de Páscoa, pelo cãozinho e acabou sucumbindo. “Sempre foi o sonho delas ter um cachorro em casa, então resolvi atender”, diz.
Mas Ingrid teve problemas. Laura, na época com 4 anos, não sabia como lidar com o cão. “Ela não tinha muito noção de como segurar, chegou a derrubá-lo, pisou na patinha e ele foi ficando com um medo tremendo dela”, conta a mãe sobre a primeira experiência com um yorkshire terrier, que teve de ser devolvido para a loja.
Dois anos depois, novamente o mesmo pedido. Desta vez a análise foi mais crítica. “Agora que elas estão maiores, achamos que seria uma boa. Elas adoram, amam ele, ajudam a cuidar, a limpar. Para o primeiro mês está ótimo”, relata Ingrid sobre Fred, outro yorkshire terrier, o mais novo morador da casa.
Para o presidente da ONG Arca Brasil, Marco Ciampi, a educação das crianças sobre como tratar os animais é fundamental. Ele relata que 70% dos casos de mordeduras notificados na cidade de São Paulo são em pessoas da família. “As crianças mais novas não têm noção de como lidar com o animal e eles acabam mordendo para se proteger. Pais que educam os filhos sobre como respeitar o bichinho acabam tendo menos problemas”, diz.
Antes de decidir
Ter um animal é ter a responsabilidade sobre uma vida. É mais do que dar comida. É dar carinho, cuidados veterinários, passear, limpar a sujeira, abrigá-lo corretamente e respeitar as outras pessoas, colocando coleira e proteção para sair na rua.
O professor Paulo Parreira aconselha que o candidato a ter um companheiro canino faça uma análise crítica da sua rotina e saiba que ele permanecerá com a família por muitos anos. “É preciso ter em mente que o animal vive perto de 12 anos. As pessoas compram por impulso quando é filhote e depois que cresce e começa a dar trabalho, acaba se tornando um problema”, afirma.
Então, antes de trazer aquele lindo cãozinho para casa é preciso pensar em algumas coisas para que ele não se torne um monstrinho de estimação. “O cão é um animal social, com necessidade de convívio. Se passa muito tempo sozinho ou sem atenção, interage com objetos e móveis da casa, aí o dono passa a reclamar que o bicho está destruindo tudo”, diz a professora Carla Molento, do Laboratório de Bem-Estar Animal da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
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