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“Os cães pagam o preço, mas a leishmaniose não existe sem o mosquito”, explica Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil, organização não-governamental de proteção aos animais. O “preço” a que ele se refere é a eutanásia dos cães infectados com essa zoonose – a única forma de combate à doença permitida pelo Ministério da Saúde (MS).
A questão gera polêmica entre o Ministério da Saúde e os protetores. Segundo uma portaria do MS, em conjunto com o Ministério da Agricultura (MA), editada em julho de 2008, fica proibido o tratamento de leishmaniose visceral canina com produtos de uso humano ou não registrados pelo MA. Sem a possibilidade de tratamento, resta sacrificar os cães infectados.
Os protetores apontam que a eutanásia é uma medida extrema que não trata o foco do problema: a proliferação do mosquito vetor, o grande responsável pela transmissão da doença. Nas cidades em que a leishmaniose visceral é encontrada, o número de cães sacrificados pode chegar a milhares.
No Paraná foram registrados cinco casos desse tipo de leishmaniose em 2008 – dois em Curitiba – todos casos importados, ou seja, os animais se infectaram em outras regiões e tiveram de ser sacrificados. A Secretaria de Estado da Saúde afirma que como o mosquito vetor não é encontrado na região, não há perigo de transmissão.
A doença é transmitida por um protozoário que usa cães como reservatório – nos humanos causa lesões nos órgãos internos e pode levar à morte. Antes endêmica das regiões norte e nordeste, casos já são relatados no norte de São Paulo, Grande ABC e até norte do Paraná.
O veterinário Fábio Nogueira, que acompanha de perto o drama da doença em Andradina, em São Paulo, – onde estima que mais de 15 mil animais já foram mortos – considera que os cães contaminados poderiam ser tratados. “Há um terrorismo por parte da saúde pública. Muitos são sacrificados sem nem estarem infectados.”
O veterinário professor doutor Vítor Márcio Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que a doença é tratável. “O Brasil adota uma postura não usada nos países europeus. Aqui, se centraliza a forma de controle no reservatório (cão) e não no combate ao vetor”, diz.
No mercado brasileiro existem duas vacinas autorizadas pelo Ministério da Agricultura. A Leishmune, da Fort Dodge, é a mais antiga. O fabricante estima sua eficácia em 97% e diz que os anticorpos usados na vacina não interferem nos exames sorológicos. A outra vacina é a Leish Tec, produzida pelo laboratório Hertape Calier. Lançada em outubro passado, é feita com organismos recombinantes geneticamente modificados, o que segundo o fabricante garante a negatividade nos testes sorológicos.
Segundo o chefe da divisão de produtos biológicos do Ministério da Agricultura, Ricardo Pamplona, as vacinas têm o uso autorizado e estão sendo reavaliadas, de acordo com uma portaria de 2006, que definiu novas regras . “Nós definimos se ele é eficaz ou não para o animal. Quem avalia se ele é eficiente para o controle da zoonose é o Ministério da Saúde, que até agora não recomenda o uso das vacinas até que se concluam os estudos”, diz.
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