Celebridades

Provocador acidental

Daniela Neves - danielan@gazetadopovo.com.br
29/11/2009 02:16
Subindo em direção à casa de Marcos, o clima lembra pouco a agitada rua. Uma bela e antiga residência, algumas árvores e uma casa verde de madeira ao fundo, onde funciona a sala de ensaios. “Morava nesta casa no Alto da XV quando o proprietário pediu para eu sair porque o imóvel seria derrubado para abrigar um prédio. Saí, mas mandei desmontar a casa e trouxe parte dela comigo”, conta.
O cuidado com a casa de madeira demonstra um pouco da paixão que o diretor desenvolve pelas coisas que passam por ele. O paulista de Registro, 29 anos, veio para o Paraná aos 9, com os pais. Moravam em Pinhais. Quando estava na 7ª série do ensino fundamental, escreveu em uma redação que gostaria de ser ator de teatro e o professor de Português, incentivando o adolescente, o levou para um grupo amador da cidade. Não ficou muito tempo, nem no teatro nem na escola. “Era um adolescente revoltado. Fiz a 8ª série e fiquei dois anos sem estudar. Só voltei porque descobri que o Colégio Estadual do Paraná tinha um curso de Ensino Médio de Artes Cênicas”, conta. O difícil é imaginar o adolescente revoltado diante desse adulto de voz calma e pausada.
Depois que saiu do Estadual, fez dois anos de estágio no Teatro Guaíra, onde entrou em contato com suas primeiras referências: Marcelo Marchioro e Edson Bueno. “Eram os anos 90 e eles estavam em grande produção. Acompanhá-los foi fundamental para a minha carreira como diretor”, diz. Estudou na Faculdade de Artes do Paraná e como trabalho de conclusão de curso, em 2003, montou sua primeira peça, Água Revolta, para a qual chamou a atriz Rosana Stavis, que já admirava nos palcos e passou a amar. Ela está em todas as suas montagens, desde então.
Os dois foram apresentar a peça na França e, em Paris, engataram um romance que se tornou casamento. Há quatro anos, vieram os encantos da pa­­ternidade, com a chegada da pequena Julia.
Desde que criou a companhia de teatro Marcos Dama­­­ceno, em 2003, além de Água Revolta (2003), apresentada no festival de teatro de Picardie, França, o diretor montou Psicose 4h48 (2004), da autora inglesa Sarah Kane; Sonhos de Outono (2005) e Sobre Tempos Fechados (2007).
Mais foi este ano, no Festival de Teatro de Curitiba, que Da­­­maceno deu o que falar com a peça Árvores Abatidas ou para Luís Melo. A montagem foi considerada um soco no estômago na cena teatral curitibana. Na trama, uma atriz (interpretada por Rosana) que, ao ser convidada para um jantar em homenagem a um ator famoso, fica perplexa diante da mediocridade daquele grupo de artistas. No meio do texto, referência a nomes da arte local, como Nena Inoue, Felipe Hirsch e Luís Melo. “As pessoas acham que foi provocação, mas foi muito mais uma reflexão sobre como se desenvolvem as relações em nossa cidade.”
A peça deu repercussão nacional ao trabalho do diretor. Esse e outros textos de Damaceno serão publicados pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo dentro de uma coleção sobre dramaturgia brasileira (incluindo Gerald Thomas, Mario Bor­­­tolotto, Roberto Alvim).
Chegou a um ponto em que passou a ser pressionado para se mudar para São Paulo. Mas ele resiste em ir embora. “Tenho amigos que estão bem em São Paulo, como o Ivan Cabral, da companhia Satyros, que dizem que não posso ficar aqui, que tenho que ir para lá. Às vezes penso no assunto, mas meu jeito é muito curitibano. Acho que sofreria muito deixando Curi­­tiba”, conta.
Optar por ficar não impede que a companhia de Marcos cresça. Em 2010, Árvores Abatidas fará turnê nacional que passará por 85 cidades de praticamente todos os estados brasileiros. Rosana e parte da companhia ficarão na estrada o tempo todo. Marcos acompanhará parte da viagem, porém estará fixado aqui, cuidando de Julia, de Milu e dos outros projetos da companhia.