Histórico

À espera do adeus

Adriana Czelusniak - adrianacz@gazetadopovo.com.br
19/12/2010 02:12
Após a morte da mãe, ficou mais evidente para o fotógrafo norte-americano Philip Toledano que seu pai, já idoso, sofria perda gradativa da memória. Foi então que criou um blog com fotos e reflexões sobre a convivência com ele, naqueles que, sabia, seriam os últimos anos dos dois juntos. O sucesso mundial na internet foi tamanho, que o material acabou sendo transformado no livro Dias com Meu Pai. Suas páginas têm ajudado muita gente a passar pela fase em que temos de lidar com um pai ou com uma mãe próximo do fim da vida. Por e-mail, o fotógrafo respondeu às perguntas do Viver Bem.
Como foi o processo de escrever o blog e o livro sobre seu pai?
Bem, o blog e o livro são quase a mesma coisa, mas, falando no processo, eu passei cerca de um ano e meio fotografando e um dia sentei e comecei a escrever o texto, que ficou pronto em três ou quatro dias. Eu passei tanto tempo pensando sobre o que eu gostaria de escrever, que tudo veio à tona mais ou menos pronto. Eu adicionei algumas imagens ao blog depois, mas não foram muitas…
Qual era a sua intenção ao criar o blog com as fotos de seu pai?
Essa é uma boa pergunta. E eu não tenho muita certeza da resposta. Eu acho que simplesmente queria tirar tudo aquilo que eu estava pensando de dentro da minha cabeça, e mandar para o mundo. Eu realmente não pensei que alguém estaria interessado na minha experiência, porque isso era uma coisa muito pessoal.
Seu livro é iniciado com um momento delicado que viveu, quando desistiu de repetir ao seu pai que a sua mãe havia morrido e passou a dizer que ela, a esposa dele, estava em Paris. O blog foi uma forma de tentar lidar com esse período difícil?
Eu acredito que sim. Eu percebi que, depois que a minha mãe morreu, havia tantas coisas que eu gostaria de me lembrar sobre ela, tantas questões deixadas sem resposta, que me fez bem capturar uma pequena parte do que eu estava vivendo com meu pai. Nem toda areia escorreu pelas minhas mãos.
Que tipo de retorno teve com o blog?
Para começar, eu fiquei impressionado. Depois de uma semana os acessos ao blog foram crescendo e eu comecei a receber cinco mil, e depois dez mil pessoas acessando por dia. Sem falar nos e-mails, que chegavam de todos os lugares do mundo e de todos os tipos de pessoa. Surpreenden­te­mente, eu recebo muitas mensagens de crianças e adolescentes.
As pessoas também lhe escrevem para compartilhar a própria história? Lembra-se de alguma em particular?
Elas contam as suas histórias, me enviam fotos de seus pais e contam como meu blog pôde ajudá-las. Essa experiência tem sido uma verdadeira honra, ter ganhado a confiança de tantas pessoas e poder tê-las ajudado de alguma forma. É muito difícil apontar uma história em particular, mas eu me lembro de alguns e-mails em que as pessoas me contaram que há anos não falavam com seus pais e, depois de terem lido o livro, acabaram se reconectando com eles.
O seu pai chegou a perceber a sua intenção com as fotos?
Ele gostava da ideia de que o que eu estava fazendo era uma forma de me lembrar de nossa vida juntos. Mas ele não gostava muito das fotos.
Seu pai lhe disse algumas vezes que queria morrer, pois havia vivido demais. E você escreve no livro que uma parte sua também queria que ele se fosse. Como foi lidar com esse conflito interno?
É realmente muito estranho um filho desejar a morte do pai, mesmo porque desde que ele se foi eu não tenho muitos familiares, estou por minha conta. Mas arrasava meu coração vê-lo tão triste. Eu não acho que você lida com esse tipo de emoção, você apenas passa por elas e, em algum ponto, o sol acaba saindo de trás das nuvens novamente.
Como é ler seu livro hoje?
Eu não leio o livro, para ser ho­­nesto. Como todas as imagens vivem em meu coração não preciso de algo tangível para me lembrar dele. Mas não temos muitas chances na vida de ajudar pessoas, então, se o livro ajuda tanta gente, então ele deveria mesmo estar por aí.