Descobri a falta que faz um bom livro da pior forma possível: durante uma viagem em que eu tinha bastante tempo para ler e estava acompanhada por um grupo de ingleses. Boa gente, os ingleses. Os que estavam naquele grupo liam muito, cada um carregava três ou quatro livros de 300, 400 páginas. Pena que os livros que eles levavam eram… lixo. Sim, eles liam compulsivamente, mas não havia muito o que se achar naquelas páginas. O que me leva a crer que liam só para matar o tempo, talvez para não ter que conversar com os companheiros de trem, barco, ônibus ou avião. Como aquele personagem de O Turista Acidental (no cinema, interpretado pelo Willian Hurt), que viajava com um livrão grosso que ele nunca terminava, só para ter onde esconder o rosto quando o passageiro da poltrona ao lado mostrava intenção de conversar).
Eu era companheira dos ingleses no barco que singrava tranqüilamente um rio em uma viagem de três dias. A paisagem era interessante, mas um tanto repetitiva. Duas vezes por dia descíamos para conhecer uma cidade ribeirinha: ruas vazias, cabras, casas de barro, crianças que te seguem pelas vielas, mulheres que sondam por trás das portas aqueles estrangeiros branquelas.
Do Brasil eu levei um livro curtinho, Uma Questão Pessoal, do japonês Kenzaburo Oe, que meu amigo Zé Carlos havia presenteado no meu aniversário. As 200 páginas pareciam de bom tamanho. Mas a viagem foi longa, cheia de conexões e o primeiro dia no hotel, monótono. Resultado: o livro do Zé foi lido antes da viagem de barco começar. Perguntei à gerente se ela podia me emprestar um livro da biblioteca do hotel. A senhora, uma belga, me apareceu com um romance de capa cor-de-rosa e título romântico. Nada promissor. Mas seria embaraçoso recusar. No barco, li uns dois capítulos: tratava-se da linda história de um casal de meia-idade, ambos milionários e lindos, que iniciam um namoro que enfrenta mil obstáculos. Não me identifiquei muito com os personagens e resolvi guardar o livro na mochila. Passei a sondar ansiosamente os títulos carregados pelos ingleses e cheguei a emprestar alguns. A história do mundo paralelo em que seres estranhos lutavam entre si me lembrou O Senhor dos Anéis. Deixei prá lá. As aventuras da mulher que decidiu tirar um ano só para namorar e usou anúncios em jornal para localizar parceiros foi melhor do que eu esperava. O drama do irlandês que tenta recuperar os seis filhos que deixou em uma instituição quando partiu para a Inglaterra para trabalhar me deu algumas horas de boa distração.
O tempo todo eu me dizia: “Que pena que não trouxe um livrão, daqueles que a gente tem preguiça de pegar em casa porque pensa que não terá tempo para ler. Que pena que eu não trouxe a Bíblia!” A Bíblia, que maravilhosa companhia… Como já se disse, lá tem de tudo: história, dramas, crimes de todos os tipos, déspotas, escravos, mulheres sedutoras e homens fortes e bobões. Melhor ainda: tem algumas idéias que, de tão fortes, precisaram ser explicadas através de parábolas. Mas eu não levei a Bíblia. Por isso, ao voltar, tratei de comprar uma. Escolhi uma edição pequena, que dá para carregar na mala. Se eu precisar deixar para trás para abrir espaço na mala para as lembrancinhas que trarei para as crianças, posso abandoná-la tranquilamente, certa de que poderei comprar outra em Curitiba. Aliás, antes que alguém pergunte, era isso que os ingleses faziam. Todos aqueles livros grossos ficaram lá, na África. Uma espécie de lixo atômico.
Bibliografia do desastre:
• O Turista Acidental, de Anne Tyler.
• Aunt Margaret’s Lover, de Mavis Cheek.
• Uma Questão Pessoal, de Kenzaburo Oe.
• Evely, a True Story, de Evelyn Doyle.
Marleth Silva é editora-executiva de cadernos.
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