Histórico

Aconteceu comigo no verão

Érika Busani - erikab@gazetadopovo.com.br
19/12/2010 02:16
Uma kombi de japas
Não consigo lembrar de um só verão. Posso dizer que é a estação do ano que mais amo porque lembra sol, mar, praia, férias!
Santos era o meu destino na infância com a família. Sim, já tivemos uma kombi para os cinco filhos. Terminam aí os clichês de família japa. Era uma loucura, meus pais tinham de cuidar de cinco filhos. Minha mãe não entrava no mar, ficava na areia sob o guarda-sol com seu maiô estampado, óculos grandes e saída de praia. Meu pai ia para a água conosco e as pranchinhas de isopor ‘havaí 5.0’ (a do filme mesmo!). A gente cantava a musiquinha a cada onda! Assim, aprendemos a levar caldo sem medo. Todos sobreviveram aos verões. Na adolescência eram os amigos que faziam de cada verão o melhor de todos. Em Ubatuba, era praia o dia inteiro e à noite, fogueira e cantoria!
Com 21 anos conheci meu marido Xico e passei a frequentar as praias do Sul. Virei mãe e me apaixonei por Canto Grande. Foi onde minhas filhas passaram seus verões e cresceram junto aos filhos de grandes e amados amigos. Havia um sonho coletivo de nos aposentarmos, abrir um negócio e morrer em Canto Grande! Ainda estou no mesmo lugar, porém o mar parece mais distante. O sonho também. Mas as lembranças e sensações estão presentes. O verão me deixa alegre.
Mitie Taketani, 44 anos, proprietária da Itiban Comic Shop.
* * * * * *
Uma história de amor
Essa é uma história de amor que aconteceu no verão de 1992, em Caraíva, no Sul da Bahia.
Um mês no paraíso. No dia da chegada fomos jantar num dos dois restaurantes que havia por lá. Era noite de lua nova. Escuridão. O vilarejo não tinha luz elétrica. Voltando para casa no rastro da areia branca fomos surpreendidos por um bando de cães. Eram muitos. Latiam e nos ameaçavam. Continuamos a andar, lentamente, sem enfrentá-los e conseguimos chegar bem. Um deles se mostrou amigável. Abandonou o grupo e nos acompanhou.
Na manhã seguinte lá estava ele. Um vira-lata qualquer que passamos a chamar de Cachorro. Ele virou nosso escudeiro e companheiro de praia e caminhadas. Protegia-nos dos outros cachorros e das pessoas que ele não confiava. Após 20 dias fomos visitar a aldeia dos Pataxós. Cachorro foi atrás. Ao cruzarmos o portal da aldeia, um menino correu ao nosso encontro fazendo festa pro Cachorro. Ele era seu cachorro e tinha se perdido no vilarejo. Foi lindo de ver os dois. Cachorro balançava o rabo de felicidade. O indiozinho acarinhava o animal e logo tratou de prendê-lo.
Ao pegar a trilha de volta, após caminhar uns 15 minutos, ouvimos barulho de bicho correndo atrás de nós. Era ele, Cachorro, vindo em na nossa direção e o menino atrás, gritando para que ele parasse. Mas ele só parou ao nos encontrar. Veio se despedir e retornou para a aldeia junto com seu amiguinho, o menino Pataxó.
Cléo Busatto, escritora.
* * * * * *
Watermelon Man
Gosto muito de melancia, desde muito cedo. Não tenho lembranças da época que comecei a gostar de melancia, mas tenho em minha memória, coração e alma, verões maravilhosos no Ribeirão. Um lugar mágico, onde o sol se põe no mar e a lua toca a água. A praia é ladeada de vegetação nativa, lindas espécies de palmeiras, bromélias, pitangueiras centenárias. Para completar, a turma do lado na areia está pelo menos a 100 metros de você na alta temporada.
Pois bem, cenário completo, estava eu lá, depois do almoço, sentado no sofá da sala vendo tevê e mergulhando dentro de uma melancia. Escuto minha mulher chamando: “Andrééééééééé, o dinossauro foi pro mar!!!”. O tal Dino era uma boia dessas imensas – só em posto de gasolina pra encher o bicho –, estava na beira da praia e uma rajada de vento a levou para o mar. Putz! Pai-herói, eu saio correndo para buscar a boia que se afasta lentamente rumo ao fundo. Consigo dar umas 30 braçadas até perceber que a melancia não me deixa flutuar… Prestes a uma congestão, quanto mais eu me aproximo da boia, as marolas que eu faço a levam mais adiante. Desisti de tentar. Afinal, era eu ou a boia!
Voltei pra areia, como um náufrago que encontra a praia, e ficamos eu, minha mulher e os três meninos olhando aquela cena de despedida. Quando nem víamos mais o Dino, surge um barco puxando devagar a boia pela beira do mar, procurando o dono, que já recuperado se preparava para mais um mergulho na melancia.
Andre Fort, 41 anos, arquiteto.
* * * * * * *
Verão em Superagui
Era semana de carnaval. Viajávamos eu, meu marido e nossos dois filhos para Superagui. A vila de pescadores é de um encantamento, pois as casas são pintadas de um colorido muito alegre. Volta e meia percebíamos as crianças nativas fazendo arte com o que a natureza oferece, como máscaras das cascas dos coqueiros, ou da carcaça de algum peixe ou outro animal morto.
Foi ao saber que o carnaval lá era comemorado com fandango e o baile dos mascarados que aconteceu uma situação de saia-justa muito divertida. Perguntei ao meu filho menor, que na época tinha uns 4 anos, o Kelvyn, se gostaria de se fantasiar. Ele pediu que fosse de gatinho preto. O mais velho, Axel, de 9 anos, maquiei como vampiro. À noite, todos prontos, eu disse: Agora vamos para a festa! Vamos caçar outros monstros!
Assim, por todo lugar que passávamos o Kelvyn apontava para algum mascarado e dizia: “Mamãe! achei mais um monstro!” E mais outro, e mais outro. Axel e Kelvyn começaram um jogo de quem enxergava primeiro, e foram fazendo a contagem.
Fomos para o baile dos mascarados. Saímos do salão para tomar alguma coisa. Sentados do lado de fora do boteco, continuava a contagem dos mascarados. Até que em um momento o Kelvyn, com aquela carinha bochechuda pintada de gatinho preto, ficou com um olhar petrificado e disse assustado e gaguejando, em alto e bom som que todo mundo ouviu: “Ma-mãe! Achei outro monstro, mamãe do céu!”
Dentro do boteco havia um homem. Um homem sem máscara. Ele era grande, com barba, e estava muito, mas muito vermelho mesmo. Sobrancelhas grossas e pretas e usava óculos de aro preto, quadrado. Ficou de frente para nós e ouviu o comentário.
Todos se arrebentaram de rir.
Superagui no carnaval. Eu recomendo.
Marcia Széliga, artista plástica.
* * * * * * * * *
Interatividade
Qual é sua história de verão favorita?
As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.