Histórico

Azulejos bem contados

Adriano Justino
19/06/2006 00:43
Ufa! Cansa, mas virou vício. Nunca fui atleta de carteirinha, apesar de já ter perambulado pelas mais diversas modalidades esportivas, desde o basquete no time da escola, na adolescência, ao circuito supino/esteira na sala de musculação da academia, nem sempre com a disciplina recomendada. Praticar esporte é quase uma religião para boa parte dos “seguidores” – e para outra parte, terapia pura. Me enquadro no segundo time. Nado por um monte de motivos, mas principalmente porque os neurônios precisam descansar de vez em quando.
O horário é ingrato. Às 6h30 já estou na academia, maiô e touca, encarando aquela ducha “mandrake”. Pelo menos duas vezes por semana o ritual insano se repete. É o único horário que dá pra ir. Explica-se: todos os dias, o menino mais fofo do mundo acorda às 6 horas da manhã, exigindo sua mamadeira. Então, quando o cidadãozinho tinha cinco meses de idade – e eu 20 quilos a mais – decidi que encararia a academia neste horário, uma vez que já estava fora da cama mesmo…
Depois de circular pela casa nas pontas dos pés e fazer o mínimo de barulho possível – definitivamente, encanamento de edifício velho é um problema nesta hora – dirijo-me, descabelada e mulamba, para a academia. O desafio é conseguir alcançar o vestiário antes de encontrar outro doido de pedra no caminho e enfiar a touca para esconder o cabelo “acabeidelevantar”. Depois… raia! E dá-lhe 2 mil metros, em uma hora de braçadas, pernadas e devaneios.
Sim, porque nadar faz bem para o cabeção! Além de contar quantas piscinas completam 100 metros da braçada de golfinho com pernada de nado peito que a instrutora pediu, quem nada ainda pode usar a água quente para limpar a mente. Ou deixá-la ainda mais enlouquecida com tantos pensamentos boiando. À escolha! Depende muito do dia, de como foi a semana ou do que vem pela frente. Geralmente, entre um azulejo e outro e a contemplação da cor das telhas do teto, planejo o meu dia. “Mas, mulher, não era pra relaxar?”, pergunta um amigo meu, para quem a experiência com piscinas não passou de duas semanas. Relaxar, no caso, é ter tempo de pensar na minha vida, nas minhas tarefas, na minha rotina. É um momento egoísta, ainda que esteja diretamente relacionado ao que eu vou fazer no restante do dia, interagindo com mais 200 outras pessoas.
Você não imagina no tanto de coisa que dá para pensar em 400 metros de nado craw! Escolhe-se a roupa – sem muita convicção, já que isso também depende da aprovação do espelho, em casa –, as contas que precisam ser pagas no dia, a hora do pedreiro e da manicure, o médico das crianças, o desaforo que você engoliu no trabalho e o que deveria ter feito no trânsito, aquela maldita frase que faltou na hora da conversa conjugal, da lista do supermercado… “Será que já fechei os 400 m?” Na dúvida, nado mais duas piscinas.
Claro, a atividade tem seus percalços. Quando a lista de exercícios inclui um 100 medley, os 25 metros de nado golfinho ficam martelando na cabeça: “Lá vou eu, com a minha borboleta de asa quebrada”. Como é difícil coordenar pernada e braçada e ainda respirar! Sem falar na tensão de dividir a raia com outra pessoa, nadando de costas. Como manter a linha reta sem acertar a cara do companheiro?
Canseira que vale a pena. Os efeitos da natação são duradouros, e contribuem para aliviar o estresse do dia que começa. No final, quando chego em casa, no corre-corre do banho-lanche-bagunça-cama das crianças, depois de um dia inteiro de trabalho, a última coisa que lembro que fiz é a natação. Sinal que a prática me é leve, ainda que chegue na redação exausta fisicamente ou morta de fome na hora do café da manhã.
Nadar faz bem para todo mundo lá em casa. Minha filha de 5 anos também cai na água, e já carrega a família para torcer por ela nas competições, onde garante as infames medalhas de participação. O maridão também foi cooptado para a atividade. Só falta o moleque, curiosamente, o responsável pela minha terapia aquática há mais de um ano, quando tive que levantar de novo às 6 horas para dar o peito e resolvi malhar. Por enquanto, ele só curte os benefícios secundários da natação da mamãe: tê-la um pouco menos estressada, por causa das braçadas de madrugada.
Anna Paula Franco é editora de interior, mãe da Lorena e do Enzo e ficou indignada com o desenho que o ilustrador Felipe Lima fez para o texto. Ela garante que a imagem não corresponde à realidade.
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