Certa vez li uma reportagem sobre um escritor da nova geração da literatura americana. James Frey era o nome. Com 30 e poucos anos, sem o menor pudor, o sujeito lascava na reportagem que pretende ser o maior escritor de sua geração. Na última pergunta, sai com essa: “Quero ser diferente de tudo o que já foi feito antes, e acho que nunca ninguém escreveu como eu. Mas é claro que tenho semelhanças com outros escritores americanos, como Hemingway, Bukowski ou Jack Kerouac. Dou continuidade à tradição deles”.
Fazendo o comparativo do geniozinho e transportando a querela à esfera da bola, tentei me lembrar de alguém que pudesse aglutinar três características tão ímpares no relvado. Não existe. Não há nenhum jogador que consiga ter o ímpeto do garanhão encrequeiro Hemingway, a incoseqüência e ternura do velho Buk e a libertinagem e o poder visionário do andarilho Kerouac. Mas cada um pode muito bem ter seu similar em campo. A partir daí, relacionei 11 craques das letras com 11 similares com a bola. Tentei encontrar um equivalente a Pelé, mas não deu: infelizmente não sei quem escreveu a Bíblia.
Ernest Hemingway (1) – De caráter explosivo, porém de um talento fora do comum, dentro de campo o autor de Adeus às Armas e Por Quem os Sinos Dobram poderia muito bem ser comparado a Rivelino. Dois gênios difíceis de lidar, porém competentíssimos e objetivos.
J.D. Salinger (2) – Assim como o autor do clássico adolescente O Apanhador no Campo de Centeio, Tostão também teve um longo período de isolamento após largar o futebol – desde que optou pela reclusão voluntária numa fazenda do interior dos Estados Unidos, na década de 60, o criador de Holden Caulfield nunca mais escreveu. Para nossa sorte, Tostão resolveu aparecer de volta e hoje nos passa seus conhecimentos em excelentes comentários. Guardadas as devidas proporções, tão bons quanto os textos de Salinger: com humanidade e embasamento.
Gabriel García Marquez (3) – Com um texto redondo e preciso, em que a imaginação vai longe, mas sem se perder em devaneios inúteis, a literatura de Marquez lembra o futebol de Zico. Clássico, simples, eficiente, porém mágico. Assim como o autor colombiano, o Galinho conseguia transformar o simples em fantástico.
Charles Bukowsky (4) – Não há como não remeter a Garrincha. Não só pela simples companhia do álcool, que ambos tanto adoravam. Mas também pelo caráter fanfarrão e vida desregrada. Dos dois lados da moeda, sujeitos que não ligavam para as coisas do dia-a-dia, como contas a pagar ou compromissos profissionais. O que interessava era a diversão pura e simples, seja caçando passarinhos com amigos em Pau Grande, seja torrando toda a grana do mês nas pistas de cavalos de Los Angeles.
John Steinbeck (5) – Assim como o escritor americano conseguia jogar pitadas de humor na depressão americana pós-crack de 29, Toninho Cerezo – que chegou a ser palhaço antes de virar jogador profissional – amenizava um pouco as dores da derrota em campo, como na dolorida queda em 82. Da desgraça, os dois encontram o humor.
John dos Passos (6) – Defensor dos direitos sociais e crítico do american way of life, conforme narra a trilogia USA, esse americano de origem portuguesa é o Sócrates da literatura (não o da Grécia, mas o Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ou simplesmente Magrão). Polêmico e ferrenho defensor de seus ideais. Assim como o Doutor, líder da Democracia Corintiana e uma das poucas vozes inteligentes do futebol brasileiro.
Nick Hornby (7) – Talvez pela idade, talvez pelo gosto pela cultura pop, o autor de Alta Fidelidade, Grande Garoto, Como Ser Legal e Uma Longa Queda está para a literatura como Casagrande para o futebol. E um já rondou a área do outro. Casão é habitué de shows de rock – elemento constante na obra do inglês – e tem uma coluna esportiva de caráter, digamos, menos rançoso do que as de outros ex-jogadores. Hornby é doente por futebol, fã dessa arte brasileira e do Arsenal, conforme demonstra em Febre de Bola.
Érico Veríssmo (8) – Não apenas por serem conterrâneos – está certo, bem sei que Falcão é catarinense de nascença, mas, sem a menor dúvida, gaúcho de alma. As semelhanças vão além do fato de o filho de Érico, Luís Fernando, ser torcedor doente do Inter de Falcão. Em ambos está o estilo, a elegância, o respeito ao próximo. No caso de Falcão, aos adversários, que nunca receberam uma botinada do melhor volante do Brasil de todos os tempos. No de Veríssimo, na humildade expressa por todo humanismo de suas obras.
Jack London (9) – Eis o errante, o incontrolável, o que não segue regras. Tal qual o aventureiro autor de Caninos Brancos e O Chamado da Selva, Edmundo é incontrolável. Não à toa o chamam de Animal. Como London sempre comparava os sentimentos humanos aos comportamentos das feras selvagens, a relação cai bem.
Graciliano Ramos (10) – Em ambos, o comportamento avesso ao do nordestino convencional. No lugar da espontaneidade, a introspecção. Assim como o alagoano Graciliano era fechado e calado, o é também o pernambucano Rivaldo. Mesmo com tamanho silêncio, Rivaldo foi capaz de fazer maravilhas com a bola nos pés. Tal qual Graciliano com a pena nas mãos em Vidas Secas, Angústia, Memórias do Cárcere…
Jack Kerouac (11) – Mais pelo estilo de vida não “tô nem aí”. Se o franco-canadense Kerouac optou por largar tudo e desbravar a América pedindo carona, tudo muito bem narrado em On The Road, Marinho Chagas, lateral da Copa de 74, preferiu o sol acolhedor do Rio Grande do Norte, as dunas de Jenipabu para viver após deixar a bola.
Marcos Xavier Vicente é jornalista, repórter da Editoria Paraná e perna-de-pau nas horas vagas. marcosx@gazetadopovo.com.br.
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