Isabeli Fontana definitivamente chegou no topo: pela quarta vez, enfeita as páginas de um “calendário de borracharia”… quer dizer, não um calendário de borracharia qualquer, mas a mitológica folhinha da Pirelli – que, na sua 38.ª edição, de 2011, traz a supermodel curitibana clicada por ninguém menos do que Karl Lagerfeld, ao lado da atriz Julianne Moore e de outros tops, como Daria Werbowy, Lara Stone, Erin Wasson, Elisa Sednaoui, Iris Strubegge e Baptiste Giacobini.
Agora puxe pela memória e procure lembrar o que você sabe sobre Isabeli Fontana… Que ela foi mãe antes dos 21 anos, depois de engravidar do modelo Álvaro Jacomossi? Que depois se casou na praia e teve outro filho, dessa vez com o galã global Henri Castelli? Que se separou de novo, e hoje namora o vocalista d’O Rappa, Marcelo Falcão? Talvez você se lembre apenas de ter visto aquele rosto em algum lugar (nas caixinhas da Biocolor ou nos anúncios da Monange, por exemplo). Ou, por outro lado, saiba muito bem que ela é uma das três maiores modelos do Brasil, presença constante nas capas das principais revistas de moda e nos editoriais das marcas mais cobiçadas do planeta.
Quem a observa aqui debaixo, do ângulo dos “simples mortais”, pode achar que o destino foi generoso até demais com ela. Primeiro, por presenteá-la com um rosto irretocável, com direito a maxilar quadrado, lábios carnudos e penetrantes olhos azuis. Como se fosse pouco, Isabeli ainda ganhou um corpo no melhor estilo Gisele Bündchen, “magro e curvilíneo”. E o que dizer dos desfiles e campanhas para as grifes mais importantes do globo, dos filhos lindos com homens idem, de ganhar muito dinheiro, viajar, conviver com celebridades e ser conhecida no mundo inteiro? “Ah, mas com aquele rosto e aquele corpo, até eu…”, você é capaz de dizer.
Só que nem tudo foram flores no caminho entre as brincadeiras de rua no Conjunto Novo Mundo, no bairro homônimo de Curitiba, e o glamour do calendário da Pirelli. Nascida em 4 de julho, no ano de 1983, Isabeli (pronuncia-se Isabéli) é a segunda dos três filhos do representante comercial Antonio Carlos Fontana e da psicóloga Maribel Bergossi – os outros dois são Harrison, três anos mais velho, e Heric, quatro mais novo.
Sempre foi uma menina “meio maloqueira”, como ela descreve hoje. Criada cercada de meninos, adorava ficar na rua, andar de patins, brincar de polícia e ladrão e pé-na-bola (uma variação do esconde-esconde). Mas também passava horas brincando de Barbie com a amiga, vizinha e companheira de aventuras Paola Tavares – de quem é próxima até hoje. Ambígua, era ao mesmo tempo quieta e espevitada. “Eu era tímida, tinha poucas amizades, vivia no meu mundinho”, lembra Isabeli. “Já chamava a atenção, todo o mundo sempre olhou pra mim, mas eu não gostava. Morria de vergonha… só queria ser igual aos outros.”
Na escola ia aos trancos e barrancos: “Não gostava muito de estudar, sempre passei raspando de ano”, confessa. “Só queria saber de esporte.” “A Isabeli não era muito boa em nada”, confirma a mãe. “Acho que era preguiçosa, tinha dificuldade de concentração.”
Magricela e amiga inseparável da gordinha Paola, era um prato cheio para as gozações da molecada: “Chamavam a gente de ‘o Gordo e o Magro’”, recorda a amiga. “Eu era um patinho feio”, admite a própria. “Me zoavam muito, chamavam de Olívia Palito, Girafa, Magricela…”, revela Isabeli. “Às vezes ela vestia duas calças para a perna parecer mais grossa”, emenda a avó materna, Maria Izabel.
A exemplo da Magali, personagem esfomeada do Maurício de Sousa, e contrariando o padrão subnutrido das modelos, Isabeli era (e continua sendo) boa de garfo: “Eu chegava a chorar quando a gente viajava e eu via alguém vendendo milho na beira da estrada”, revela. “Também adorava batata frita, bolinho de arroz… todo o mundo dizia que eu era magra de ruim.”
Na infância, o único indício da futura carreira aparecia nas performances na frente da televisão. “Eu queria ser a Xuxa. Gostava de colocar os sapatos de salto alto da minha mãe e fingia que era a Xuxa, cantando e dançando na frente da tevê”, rememora a modelo. “Ela já tinha carreira no sangue”, avalia a avó. “Sempre foi muito vaidosa, e naquela idade já fazia ‘carão’ cada vez que via uma máquina fotográfica.”
O primeiro contato da garota magricela com o mundo da moda foi o convite que uma vizinha fez à sua mãe, quando Isabeli tinha 13 anos: “Ela tinha duas filhas e inscreveu as duas no CDI, um curso para modelos que havia inaugurado perto de casa, e sugeriu que eu fizesse o mesmo com a Isabeli”, lembra Maribel, que em princípio ficou preocupada com o preço. “Mas, como eles estavam começando, resolveram fazer um concurso: a menina que ficasse em primeiro lugar ganhava um book e uma bolsa para frequentar o curso. Ela ganhou e não precisou pagar nada.”
Isabeli estava no tal curso havia pouco mais de um mês quando foi anunciado o concurso Elite Model Look em Curitiba. O ano era 1996, ela contava 13 anos. “O pessoal da escola me ligou perguntando se podia inscrever a Isabeli”, conta Maribel. “Eu autorizei, eles mandaram as fotos dela para a [agência] Staff, o Victor [Sálvaro, produtor] selecionou e a indicou para a etapa nacional.”
Na disputa nacional, Isabeli ficou em terceiro lugar – atrás da mineira Ana Beatriz Barros e da londrinense Michelle Alves. “A partir desse momento, eu larguei o trabalho para poder acompanhá-la em São Paulo”, conta Maribel. “Eu não podia deixar uma menina sozinha numa cidade daquele tamanho. Viajamos muito de Cometa, naquela ponte rodoviária da meia-noite às 6 da manhã…”
No ano seguinte, Isabeli estava com 14 para 15 anos, era da Elite, e já morava com a mãe na capital paulista. “Aí ela conheceu o Eli Hadid, que a levou para a Mega, prometendo mundos e fundos”, recorda Maribel. “Mas ficamos quase um ano na m…, com a agência emprestando dinheiro até para a gente comer e se locomover em São Paulo. A gente chegou a dever mais de R$ 20 mil para a Mega.”
Foi quando Maribel pensou em desistir. “Eu cheguei para o Eli e falei: ‘Não dá mais. Sabe quando você vai ver esse dinheiro? Nunca! Nós nunca vamos poder te pagar, só estamos dando murro em ponta de faca… acho que vamos voltar pra Curitiba, e você esqueça o seu dinheiro.”
O dono da agência disse que não estava cobrando nada, e ainda insistiu para que elas viajassem a Paris, para a surpresa da mãe de Isabeli: “‘E você acha que dinheiro dá em árvore?’, eu perguntei. Eli Hadid perguntou então quanto ela queria para ficar um mês com Isabeli na França. “Ele deu US$ 3 mil, e disse que se houvesse alguma necessidade a agência mandaria mais.”
Mãe e filha desembarcaram em Paris sem falar uma palavra de inglês, quem dirá de francês. “Foi a primeira vez que eu viajei para fora do país, e me senti muito mal”, diz Isabeli. “Foi péssimo… não me colocaram perto de nenhuma brasileira, e eu não entendia nada do que falavam comigo.”
“Foi muito difícil mesmo, algumas palavras a gente entendia, outras vezes era na mímica mesmo”, confirma a mãe. “Mas ela melhorou o book dela, fez curso de inglês, e depois de uma semana fomos para o Japão. Só que o dinheiro que ela ganhou só deu para comprar uma filmadora e um relógio, que ela levou para o pai.”
Nessa altura, Isabeli ainda precisou de muita coragem para encarar o lado “casca-grossa” da profissão: “Sabe o que é o termômetro marcar 20 graus negativos e você ter de ficar rolando na lama, tendo que fazer caras e bocas para tirar fotos?”, dispara a mãe. “Quando terminava parecia que nunca mais ela ia parar de tremer, e eu tinha vontade de chorar…”
Ou seja, mesmo estabelecida com a mãe na Europa, Isabeli ainda precisaria “camelar” muito para conquistar seu lugar ao sol. “É um mundo de ilusão. A maioria das modelos que vai muito nova para fora é mais quebrada que arroz de terceira”, resume Maribel. “Teve épocas em que a gente não tinha dinheiro nem para comprar um pão. Reclamei de novo com o Eli, e ele me disse que se em cinco meses ela não ganhasse dinheiro suficiente, eu podia pegar a Isabeli e voltar para Curitiba.”
A intuição de Hadid se revelou profética: cinco meses depois, Isabeli quitou a dívida com a agência, e aos 16 anos conseguiu comprar o primeiro imóvel – uma casa na sua adorada Guaratuba, que ela tem até hoje. Só que a “virada” na carreira da modelo não aconteceu em Paris ou Milão. Foi do outro lado do Atlântico, em Nova York. “Chegando lá, ela fez o catálogo de lingerie da Victoria’s Secret. Foi a primeira vez que a marca usou uma menina tão jovem”, lembra a mãe. “Depois, a Vogue americana fez uma bela entrevista, na qual dizia que a Isabeli era a última top model do mundo.”
Enquanto isso, no Brasil, ela estrelava uma campanha da Iódice e era apontada como “o rosto do milênio”. A magricela curitibana enfim decolou – pelo menos até enfrentar a turbulência da gravidez precoce. “‘Agora ferrou tudo’, eu disse pra ela. ‘Acabou a sua carreira’”, conta Maribel. “Falavam para eu tirar”, revela Isabeli. “Meu agente em Nova York dizia que eu não devia ter o bebê, que ia atrapalhar a minha carreira. Mas eu sempre quis ter uma família, e desejava aquela criança mais do que qualquer outra coisa. Na época as modelos não tinham filhos. A barriga só começou a aparecer no quinto mês, eu trabalhei até o sexto e cheguei a fazer alguns trabalhos de barrigão, para a Victoria’s Secrets e um editorial para a Vogue América.”
O filho Zion nasceu no dia 28 de fevereiro de 2004. Três meses depois, Isabeli já estava diante das câmeras, de penteado rastafári, para a Vogue francesa. “Nos intervalos, eu parava para amamentar.” Ao contrário do que se previa, a gravidez ajudou a impulsionar ainda mais a carreira. “Eles começaram a me olhar de outra forma, menos como menina e mais como mulher madura e responsável, o que ajudou a conquistar a confiança dos clientes e rendeu mais trabalhos bacanas.”
Aos 27 anos, no auge da carreira, com uma família feliz e um namorado gentil e carinhoso – além de popstar –, Isabeli Fontana se diz realizada. “O mais bacana foi que eu não me deslumbrei”, considera ela, que mantém um apartamento com a mãe em São Paulo, onde ficam os filhos. “Amo o meu país, fui criada no Brasil e quero morar aqui. E quero dar aos meus filhos a mesma qualidade de vida que eu tive na minha infância em Curitiba.”
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