Histórico

Dois pesos

Luiz Claudio Oliveira é editor da Gazeta do Povo Online
05/08/2007 23:43
Muitos jornalistas, assim como eu, optaram pela profissão porque gostam de escrever. Em algum momento sentiram que a palavra escrita não era tão difícil para elas quanto parecia ser para os colegas. Esta suposta facilidade ou proximidade com a escrita indicava dois caminhos para o vestibular: Letras ou Jornalismo. Os que optaram pelo Jornalismo, cedo descobriram que aquela suave e inocente verve literária de nada servia para o exercício da profissão que começava a abraçar.
A linguagem do jornalismo é técnica, impessoal, objetiva e raras vezes admite algo de criativo. Somente em matérias especiais, longas, ou em editorias mais liberais admite-se arriscar uma prosa mais solta. Há formas específicas de aproximação dessas duas frentes, como o “jornalismo literário”, por exemplo. Mesmo assim, jamais se troca uma informação por uma frase bem feita. Então, a motivação literária, acaba sufocada pelas toneladas de informação e objetividade que se exigem do texto jornalístico.
Para quem se interessar em continuar nesta discussão sobre estilos, particularidades e diferenças, indico o livro Pena de Aluguel – Escritores Jornalistas no Brasil – 1904 a 2004 (Companhia das Letras, 2005), de Cristiane Costa. A autora atualiza um livro anterior, de João do Rio, publicado no início do século 20. Ambos os autores convidam jornalistas e escritores a responder à pergunta: “O jornalismo ajuda ou atrapalha quem quer se dedicar à literatura?”.
No caso de tantos jornalistas que fizeram a opção na adolescência, a Literatura quase nada perdeu com essas ausências (não que o Jornalismo tenha ganho muito, também), apesar da frustração e gavetas cheias.
Fazer livros para esvaziar gavetas nunca foi barato (para o orçamento de um jornalista). Mas isso era antes da internet e do surgimento dos blogs. Agora, ninguém mais tem desculpa para engavetar a produção literária. Basta criar um blog e colocar no ar seus contos, poemas, crônicas, romances, novelas, peças de teatro e qualquer outra forma de literatura de ficção. É fácil, muito fácil. Eu trabalho na mesma mesa com outros nove companheiros e desses, que eu saiba, pelo menos outros três além de mim mantêm blogs com alguma pretensão literára e outra tem um blog informativo. Eu, guloso, tenho um blog informativo, o “Sobretudo”, que pode ser acessado pela Gazeta do Povo Online (http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/sobretudo/) e um outro literário, o “punkpoemas” (http://punkpoemas.blogspot.com).
Ao escolher iniciar um blog literário, não quis simplesmente esvaziar gavetas. E, como passo umas dez horas por dia trabalhando com o jornalismo à frente do computador, não sobra muito tempo e disposição para dar a devida atenção à família e ainda elaborar textos literários. Decidi-me então aplicar algumas regras do jornalismo nestes textos. Crio literatura a partir de histórias que são ou poderiam ser reais. São textos curtos e numa narrativa que fica num meio termo entre a poesia e a prosa. O título “punkpoemas” é uma referência aos princípios punks do “faça você mesmo” e não perca muito tempo com enrolação, vá direto ao assunto. Mais ou menos como acontece no jornalismo. A grande diferença, é que a palavra no jornalismo vem carregada de informação e é objetiva no sentido de encaminhar a reportagem tentando não deixar dúvidas sobre os fatos. Já na literatura, a palavra carrega signos e pode e até deve embaralhar a leitura, fazer o leitor parar e tentar compreender melhor o sentido ou os vários sentidos contidos nela. Ou seja, a palavra na literatura deve sim causar dúvidas na cabeça do leitor. Vivo então, assim como todo dublê de jornalista e escritor, uma vida dupla. Numa, tento me comunicar de forma precisa e informativa com meus leitores. Na outra, a não informação e a imprecisão podem ser a melhor maneira de cativar diferentes leitores, que, talvez, sejam os mesmos.
lcsdeoliveira@gmail.com
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Na próxima semana, a Peteca está com Rogerio Galindo e a demolição da escola de sua infância.