Histórico

Ele, ele mesmo e eu

Adriano Justino
07/08/2006 02:51
Namoro um rapaz há alguns meses e igual a ele existe mais um, o irmão gêmeo. Desde então, estou formulando minha própria tese do porquê dessa ser uma experiência tão diferente para os outros. Sinceramente não acho anormal, talvez por já ter convivido brevemente com alguns pares de irmãos gerados ao mesmo tempo. O interessante, na verdade, é ver como as pessoas funcionam na presença deles e como eles reagem ao serem tratados muitas vezes como uma dupla de ETs. E às vezes a namorada acaba virando uma verdinha também.
Não demora muito e vem a pergunta: “Mas você não se confunde?” E eu penso: “Ah, até que enfim!”, como se tivesse alguma coisa errada em não ouvir a indagação. Sempre respondo que não tem como confundir. Apesar de serem univitelinos – gêmeos idêntidos – há diferenças. O modo de agir, olhar, sorrir, enfim, são duas pessoas e não uma só misteriosamente duplicada. Tenho um certo orgulho de mim mesma, modéstia à parte, por saber distinguir quem é quem. Isso ocorre desde o primeiro dia em que fomos apresentados na casa de um amigo em comum – famoso por fazer churrascos sem carne. Os dois foram batizados com nomes que têm a mesma sílaba inicial: Ro. Certa vez, em uma festa de família, um dos convidados soltou uma dessas perguntas “inéditas”, tentando identificar quem era quem. E para não fugir à tradição, a resposta mais inédita ainda: “Chama de Ro que está tudo bem”, disse alguém. Pronto! Percebi de imediato que as palavras soaram como petelecos, daqueles dados com gosto, nas orelhas do Ro, meu cunhado. Pude ver a fumaça saindo das orelhas dele como nos desenhos animados. Visão acompanhada de um comentário que poderia perfeitamente ser substituído por um sonoro palavrão formado por três vocábulos que, resumidos e mais educadamente, são conhecidos pela sigla PQP. Pela reação, posso imaginar a quantidade de vezes em que essas doces criaturas passaram por uma situação dessas.
Quando conheci “os iguais”, como eram chamados nos tempos de escola, eles foram identificados pelo amigo – aquele do churrasco feito de cerveja e truco – como gêmeo bom e gêmeo mau. Algo do tipo Ruth e Raquel, aquelas gêmeas da novela Mulheres de Areia. Mas claro, tudo não passa de uma exagerada brincadeira, afinal nenhum deles é tão bobinho ou tão sacana para merecer tal comparação. Na verdade, a diferença está no jeito mais sorridente e mais sisudo ou mais calmo e mais impaciente que caracteriza cada um. Mas estas impressões não passam de um primeiro momento. Em pouco tempo, é fácil notar que ambos são gente fina e um é tão querido e divertido quanto o outro.
Um depoimento interessante que ouvi neste convívio com os gêmeos saiu da boca da mãe deles. Certo dia, ela comentou que ao chegar em casa trocou algumas palavras com um deles na sala e se dirigiu até o quarto “muito intrigada”, reação que notei pela sua expressão ao relatar a história. Ela se perguntava com qual dos Ro teria falado. O filho na sala era o “Ro cunhado”, mas mesmo após mais de 20 anos de convivência ela estava crente de que o gêmeo era o Ro, meu namorado. A justificativa que ela deu era de que o primeiro estava de perfil, por isso não soube identificar. Aham! Ah, esse foi um dos momentos em que senti aquele orgulho de mim mesma ao qual me referi no início. Ora, até a mãe os confundiu. Que vitória pessoal!
Imagina ter sempre de perguntar: “Quem é você?” ao próprio namorado para não correr o risco de beijar a boca errada ou fazer escândalo porque o flagrou com outra e descobrir que na verdade não era ele. Definitivamente errar o alvo é impossível de acontecer, por mais que alguns maliciosos torçam pelo contrário.
Ana Carolina Nery é repórter da Gazeta do Povo Online e sempre dizia que temia namorar um gêmeo por medo de ser passada para trás.
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