Histórico

Filha da vila

Larissa Jedyn
07/08/2006 02:48
larissa@gazetadopovo.com.br
O Arruda do sobrenome parece ter ajudado Irenilda. Fé em Deus, pé na tábua e o ramo da sorte fizeram a menina que ganhou as Torres – a vila que se livrou do título de favela – logo aos sete anos, quando deixou Palmitópolis rumo a Curitiba, mudar a sua vida e de muitos a sua volta. “Casei cedo, tive cinco filhos e só aprendi a viver depois que me separei. Resolvi então que eu tinha que ensinar às pessoas tudo o que ninguém me ensinou.” Daí a virar líder comunitária e presidente do Clube de Mães da Vila das Torres foi um pulo. Resolveu que não daria nada a ninguém. Ensinaria sim outras mulheres a conquistarem seu próprio espaço. Assim como ela, que, aos 40, depois de criar os filhos e cuidar da casa, está terminando o curso de Direito. Descobriu na prática que a formação não lhe dá plenos poderes de mudar o mundo. Mas dá munição para lutar por uma vida melhor. “Não quero ser advogada, nem política. Quero conhecer as leis e sair em defesa dos direitos dos outros.” No mais, afirma que lugar melhor que a Vila não há: “Dos 10 mil moradores das Torres, uma pequena minoria é de pessoas más. Relação que se mantém para qualquer bairro de Curitiba. Aqui há muita gente boa, temos infra-estrutura e estamos numa região nobre”.
No Clube de Mães é um entra-e-sai e Irenilda está sempre disposta a ajudar quem está a sua volta. “Tem que ter um jeito especial para tratar cada uma dessas mulheres. Umas precisam de mais carinho, as outras têm que receber um empurrão para seguir adiante.”
Rodrigo Gabriel, o homem mais bonito do mundo na opinião da vovó coruja Irenilda.
A pintura é alento para a alma de Irenilda. “É uma das coisas que mais me dá prazer”, conta ela, que utiliza a técnica para ensinar a outras mulheres uma nova atividade. Fora a pintura, elas realizam oficinas de tricô, crochê, bordados, informática e até de vídeo com as crianças da Vila.
De cima da laje da casa dos pais João Batista e Ana Caetano, a vista da Vila das Torres. “Eu não trocaria a Vila por nada. A única coisa que me incomoda é a falta de verde, a poluição visual…”
“Se você perguntar sobre o objeto de maior valor sentimental para mim, respondo que, sem dúvida, é a minha casa. Ali estão depositados meus sonhos e minhas realizações.”