Histórico

Gordos

Marisa Valério
23/01/2011 02:05
Antes de mais nada, às ressalvas: nada de apologia à gordura; quem engorda vi­­ve mal e menos, e o melhor é que fôssemos todos magros. Mas mesmo quem, por artes do destino, da gula ou da genética, um dia se vê beeem acima do peso tem o direito de continuar vivendo. E, de preferência, trabalhando e se divertindo.
Levei muito tempo para entender o que tinha acontecido com minha silhueta alta e esguia. Em negação, escondi tudo debaixo de umas coisas largas. Também abandonei os espelhos. E quando via meu reflexo no vidro dos carros, na rua, fazia de conta que não era comigo.
Eu tinha uma filha pequena, um imenso luto pela perda precoce do meu pai, mil coisas em que pensar e um milhão de tarefas para tocar.
Nem sei bem como engordei. Quando vi, já estava no prejuízo: hipertensão e pré-diabetes.
Mas a vida é tão envolvente, as dietas tão impossíveis…Fui vivendo de burca. De vez em quando, um convite para um casamento me fazia procurar roupa. Nada que pudesse me tornar apresentável me servia. O que me servia me deixava na mesma. Em geral, as moças vinham com um tunicão de malha sintética, preto ou num estampado horroroso, acompanhado da calça de elástico na cintura. Eu lamentava um pouco e voltava aos pijamas de todo dia.
Um dia me enchi de coragem e entrei numa loja de roupas para gordas. Achei uma calça com zíper e um paletó alinhadinho. Na hora de sair, escondi a sacola embaixo do braço e quase chorei. Visitei muitas outras e comprei pouca coisa. Quase tudo preto, como sempre.
Também fiz tentativas com costureiras. Mas nunca deixei de me sentir um bujão de gás com capinha nova, daquelas que se compra na feira.
Até que, numa viagem a trabalho, com uma tarde livre para bater pernas, descobri um mundo em que não importa se seu manequim é XS (extra small, super pequeno) ou XL 5 (um mega extra large).
A convenção de tamanhos da roupa americana é absolutamente democrática. Nem todas as marcas fabricam a grade inteira. Mas há dezenas de boas confecções em que o maior casaco que você encontrar terá exatamente o mesmo botão, o mesmo bordado, o mesmo detalhe, cores e tecido do modelo pequeno.
É claro que o caimento da roupa nunca será igual entre magros e gordos. Mas é um alento encontrar roupa grande que seja bonita e bem feita para uma festa, para encarar uma reunião de trabalho, uma entrevista de emprego ou um passeio no parque.
O que não entendo, ainda hoje, é o que cega os olhos da indústria brasileira de moda e confecção. Os dados do IBGE são públicos e seguem parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS): 48% das mulheres e 50,1% dos homens acima de 20 anos têm sobrepeso no Brasil. E entre os 20% mais ricos, o excesso de peso chega a 61,8% entre os brasileiros com mais de 20 anos.
Ô mercado bom pra vender roupa grande!