Terça-feira é o melhor dia da semana. Eu chamo de happy day, porque é o dia de sair com a Day. A Day hoje é uma grande amiga, mas já brigamos muito. Só paramos depois de fazer um teste de personalidade e descobrir a fonte do problema: somos antônimas.
Há cinco anos, viajamos juntas e moramos com uma família italiana apaixonada pela teoria dos tipos psicológicos Myers-Briggs (MBTI), baseado nas teorias de Jung. Se você se interessar em fazer o teste, o certo é procurar um psicólogo autorizado a aplicá-lo. Mas enquanto isso pode dar uma espiada em sites como www.humanmetrics.com/cgi-win/JTypes2.asp, que traz perguntas e respostas em inglês.
Explicando muito a grosso modo, você faz um questionário e ganha uma definição: é extrovertido (E) ou introvertido (I), generalista (N) ou detalhista (S), pensador (T) ou sentimental (F), espontâneo (P) ou planejador (J). Cada pessoa teria quatro características (letras) predominantes, que refletem suas tendências de comportamento. Pois bem. Após poucas semanas de convivência sob o mesmo teto, eu e a Day descobrimos ser contrárias. ESTJ e INFP. Nossas letras eram totalmente o oposto.
Isso explicou o porquê de tanta briga, do cabo-de-guerra que tornava tão difícil conciliar as decisões de cada dia – em geral, precisávamos viver uma na companhia da outra. Mas, ao contrário da época em que este era um esporte olímpico, o jogo nunca tinha um vencedor. Vivíamos uma batalha naval na sopa de letrinhas.
Mas havíamos decidido passar um ano de aprendizado no país dos briguentos italianos, e por isso decidimos não desistir. Continuamos discordando e brigando, nessa ordem, quase todo dia, mas sempre voltávamos ao ponto de partida. Não sei explicar quando ou como, mas aos poucos as letras começaram a se encaixar, mais ou menos como em Uma Mente Brilhante, quando o matemático John Nash enxerga códigos secretos em jornais e revistas durante alucinações.
E o que serviu como justificativa do problema se tornou solução. Entender que éramos feitas de DNA alfabético tão diferente ajudou a aceitar. Além disso, nossos perfis opostos serviam para a nossa sobrevivência. Se eu podia conversar uma hora com uma pessoa chata com quem precisáramos pegar carona, a Day sabia abraçar alguém triste na hora certa. E nos tornamos “Élena” e “Daissse”, inseparáveis e prestativas. Brasiliane? Ma… bianche? (Brasileiras? Mas…brancas?)
Essa era a esperança de Isabel Briggs Myers, que desenvolveu o método de análise do comportamento: “Seja como forem as circunstâncias de sua vida, entender sua personalidade pode tornar sua percepção mais clara, seu julgamento mais preciso, e ainda aproximar sua vida do desejo do seu coração”. Hoje entendemos o jeitão uma da outra. É por isso que confiamos na amizade e “bloqueamos nossas agendas” toda terça à noite, para comer alguma coisa gostosa e falar dos outros ISTJ, ENTP, INFJ, ESFP…
Helena Carnieri é repórter de Economia e detesta mudanças de planos, bem ao contrário de sua amiga Dayse, para quem a vida é uma festa.
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