Histórico

Imagem distorcida

Érika Busani
03/10/2005 00:10
Nos parques de diversão, os espelhos mágicos são fontes de boas risadas. É o alto que parece baixo, o magro que fica instantaneamente gordo. Mas imagine viver o tempo todo com essa sensação: não importa se o peso já baixou do nível adequado à saúde, se os ossos se fazem ver sob a pele, a imagem vista no espelho é sempre muitos quilos acima do desejado, a luta diária contra a balança passa a ser medida em poucas gramas.
Capazes de fazer uma modelo de 1,80 m e apenas 53 quilos pensar em submeter-se a uma cirurgia bariátrica (de redução de estômago, indicada a obesos mórbidos), a anorexia e a bulimia são transtornos alimentares, comportamentais e mentais, que elevam a atual insatisfação generalizada com o corpo a níveis insuportáveis. “Os pacientes com esses transtornos costumam se ver como estando mais gordos do que realmente são e as formas corporais são vistas como precisando ser corrigidas”, afirma o psicólogo Niraldo de Oliveira Santos, especialista em transtornos alimentares do Centro de Estudos em Psicologia da Saúde (Cepsic) do Hospital de Clínicas de São Paulo.
Essas patologias afetam principalmente mulheres jovens. Estima-se que cerca de 2,5% das mulheres possam desenvolver anorexia ou bulimia – que matam em 20% dos casos e deixam seqüelas em 50%. Para os especialistas, os rígidos padrões de beleza impostos pela cultura globalizada não podem ser considerados o único motivo dos distúrbios, embora possam ser um fator desencadeante. “A cultura contemporânea veicula a idéia de que o corpo belo e magro é um ‘cartão de visita’ que contém as mensagens de que aquela pessoa sabe ‘gerenciar’ bem seu corpo e que, portanto, é competente na vida profissional, amorosa e que, acima de tudo, é feliz”, critica Santos. “Mas não podemos considerar esse fator como o único, talvez nem como o mais importante, embora contribua de maneira significativa”, completa.
O psiquiatra Táki Cordás, coordenador do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo (Ambulim) e professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), lembra que os transtornos foram descritos já no século 13. Para ele, a busca por um tipo de corpo magro em excesso, que não é natural mas é difundido pela mídia, “pode cutucar alguém que tenha pré-disposição de risco”.
Além do papel social e cultural da magreza, há fatores genéticos, padrões de personalidade – afeta freqüentemente pessoas obsessivas, rígidas e perfeccionistas – e, muitas vezes a ênfase familiar na questão do peso, como mães em constante dieta e que supervalorizam a estética. Nesses tempos em que isso é cada vez mais comum, a nutricionista Fernanda Scagliesi, coordenadora da equipe de Nutrição do Ambulim, faz distinção entre o comum e o normal. Para ela, a preocupação exagerada com o peso, tornando-se o principal foco na vida de uma pessoa, é sempre preocupante, mesmo que não haja transtorno alimentar.
Os médicos relatam um aumento no número de casos, mas como não há estatísticas sobre essas doenças, é difícil saber se a incidência aumentou. Cordás diz que há 15 anos, quando o Ambulim iniciou seu trabalho, havia apenas um novo caso por mês. Há oito meses, a triagem precisou ser fechada, pois a fila chegou a mais de dois anos de espera, com sete a dez novos casos por semana. “Provavelmente parte disso era demanda reprimida”, lembra.
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