Não é exatamente uma novidade que muitos brasileiros preferem ter um carro zero na garagem a desfrutar da segurança da casa própria. O fetiche de quatro rodas, símbolo móvel de status em um país com poucos livros na estante e muita sede de bola, é um traço cultural tão forte entre nós quanto a paixão por futebol. O problema é que, no trânsito, os filhos da nossa pátria mãe gentil comportam-se como hunos, bárbaros irados, dispostos a matar, pilhar e morrer para defender seu bem mais precioso. E é por isso que advogo – com unhas, dentes e convicção – a causa do ao mesmo tempo pacífico e anárquico Movimento dos Sem-Carro.
Filho de um verdadeiro apaixonado por estradas e automóveis, sempre tive minhas dúvidas a respeito da real necessidade de ser o feliz proprietário de um veículo. Via meu pai, um sujeito simpático, comunicativo e aparentemente pacífico, virar uma besta-fera no volante. Bastava que saíssemos de casa e entrássemos numa rua mais movimentada, para que Dr. Jeckyl se transformasse em Mr. Hyde. O monstro despertado pelo caos urbano, pela falta de cortesia e atenção alheia às regras, me assustava. Aquele cara não parecia ser o mesmo capaz de derramar lágrimas sinceras ao meu lado nas cenas finais de O Campeão, melodrama setentista sobre a relação entre um lutador de boxe (John Voight) e seu filho. Mas era ele, sim. Meu pai, no volante, parecia o Incrível Hulk. E eu tinha de amá-lo assim mesmo.
Até hoje me assusto com as transformações pelas quais um ser humano racional, compassivo e civilizado pode passar diante dos imprevistos previsíveis do trânsito. Já testemunhei doutores em História, neuropediatras amantes da literatura e, acreditem ou não, até mesmo psiquiatras, reagindo de forma descontrolada, quase feroz, diante de uma cortada inesperada, da falta de prudência de alguém que resolve parar em área proibida sem dar qualquer sinal de seu intento. Estão errados em sua revolta? Não, exatamente. O que intriga, no entanto, é perceber que, sobre dois pés, essas pessoas sejam capazes de atos sensatos, ponderados, e, no volante, transfigurem-se: xingam, fazem gestos obcenos, gritam e espumam como cães hidrófobos.
A única explicação que consigo encontrar, emprestando as palavras de Roberto Jefferson contra José Dirceu em seu depoimento na CPI dos Bingos, é que a falta de civilidade disseminada entre os motoristas brasileiros é capaz de despertar os instintos mais básicos e primitivos. Voltamos à idade da pedra lascada.
Faço questão de admitir que nada tenho contra o ato de dirigir. Muito pelo contrário. Afinal de contas, como amante do cinema que sou, sempre me imaginei cruzando desertos, com os cabelos ao vento a bordo de um Thunderbird conversível. Infelizmente, na vida real o buraco é mais embaixo. Está na péssima manutenção das nossas ruas e estradas; no policiamento preventivo ineficiente e por vezes corrupto; na falta de respeito e cordialidade ao próximo; e num Judiciário mais dado a puxões de orelha do que a punições adultas.
Não é difícil, portanto, defender os princípios básicos do Movimento dos Sem-Carro. Queremos paz para pensar na vida e observar o cotidiano enquanto caminhamos pelas ruas da cidade. Reivindicamos um transporte público eficiente e confortável para que todos, da diarista ao desembargador, possam desfrutar de um direito básico do cidadão. E, acima de tudo, pedimos que nos dêem a liberdade de sermos diferentes numa pátria de calotas.
Paulo Camargo é editor do Caderno G.
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