Para a nossa sorte, a força de vontade das meninas do Novo Mundo Futebol Clube – único representante do Paraná entre os 32 clubes que disputaram a Copa do Brasil de Futebol Feminino este ano – foi maior que a preocupação das suas famílias, e elas puderam mostrar que o futebol das mulheres merece ser levado a sério. O clube terminou a competição entre os oito melhores do país – só caiu nas quartas-de-final, diante do todo-poderoso Santos de Marta, Cristiane e companhia, praticamente a Seleção Brasileira. E olha que estamos falando de um time amador, em que 99% das atletas têm outros empregos ou estudam para se manter, e a imensa maioria não recebe salário. E que sofre com a ausência de torneios – há pelo menos dois anos não é feito o campeonato paranaense, e o último sul-brasileiro foi realizado em 2005 –, com a preparação deficitária e a falta de apoio e infraestrutura.
Apesar da campanha honrosa na Copa do Brasil, o último dia 27 pode ter sido o último encontro dessas garotas. Naquela noite, depois de uma pequena confraternização regada a salgadinhos e refrigerantes, e da divisão da renda obtida nas partidas contra o Santos (em que cada uma embolsou entre R$ 300 e R$ 600), todas foram dispensadas, já que não existe nenhuma perspectiva de competição no futuro próximo. Pior: o time adulto de futebol feminino do Novo Mundo Futebol Clube, cinco vezes campeão paranaense, oito vezes campeão metropolitano e uma vez campeão sul-brasileiro, pode ser dissolvido. “Cansei”, desabafa o vice-presidente e diretor de esportes femininos do clube, Luiz Carlos Cezeck, que começou o trabalho com as meninas no ano 2000. “Ninguém ajuda, você tem que tirar do teu bolso, pagar vale-transporte para umas, gasolina para as que vêm de moto, lanche, mas têm umas quatro ou cinco agitadoras que querem cobrar demais. Por enquanto vamos ficar só com o júnior. Se por acaso a gente for para a Copa do Brasil ou tiver um campeonato paranaense a gente vê o que faz, mas nesse momento ninguém sabe nem se vai ter campeonato metropolitano.”
Seleção Brasileira
Pelo menos uma dessas meninas, a meio-campista Daiane Moretti, de 21 anos, vai disputar um campeonato importante nesse meio tempo. E pela Seleção Brasileira principal, ao lado de craques como Marta e Cristiane. Ela foi uma das 23 convocadas para o Torneio Internacional Cidade de São Paulo, que começou na quarta-feira e vai até o próximo domingo na capital paulista. Além do Brasil, disputam a taça no estádio do Pacaembu as seleções femininas da China, México e Chile. Reserva imediata de Marta, Daiane deve começar no banco na partida de logo mais, a partir das 18 horas, contra o México. Mas, depois que o torneio acabar, ela volta para Curitiba e, assim como suas colegas do Novo Mundo, vai ter que se virar para se manter em forma enquanto espera por um novo campeonato.
“Eu corro no parque, brinco com bola no campo, vou na academia… tenho que treinar por conta própria para não perder o preparo físico”, confirma a jogadora curitibana. “O ideal seria que houvesse mais competições porque o ritmo de meninas como as do Santos é muito diferente: elas treinam todos os dias, fazem pré-temporada, disputam campeonatos, jogam amistosos…”
A zagueira Marina Aggio, 28 anos, capitã do Novo Mundo, assina embaixo: “Estamos anos-luz atrás de São Paulo. Ano que vem elas terão cinco campeonatos para disputar, enquanto aqui a gente nem sabe se vai ter um. E sem campeonato fica complicado manter uma equipe. O Novo Mundo é mantido pelo Moacir (Ribas Cezeck, presidente do clube), que não ganha nada para isso”.
* * * * *
Trabalho de dia, treino à noite
Marina Aggio, a capitã do Novo Mundo, personifica a dificuldade que as meninas enfrentam para jogar futebol em Curitiba – e na maior parte do Brasil. “No começo do ano, prevendo que poderia haver um campeonato, eu comecei a treinar sozinha, correndo e fazendo musculação. Rodei muitas vezes aquele campo do Novo Mundo. Na metade do ano, ainda não tinha tido nada, quando eu fui convocada para a Seleção Brasileira Universitária, que disputou um torneio na Sérvia. Por sorte teve a Copa do Brasil dois meses depois que eu voltei”, lembra. Ela conta que o primeiro treino efetivo do Novo Mundo no ano foi contra o Pelotas, na primeira partida pela Copa do Brasil (vitória por 8 a 0). “Não fizemos amistosos porque não tinha contra quem jogar, apenas pequenos coletivos que não dão muito resultado. E sem um treinamento adequado, você não tem ritmo de jogo. Por sorte não pegamos uma equipe muito forte na estreia.”
Mesmo com a eliminação em duas goleadas sofridas para o Santos (4 a 0 e 7 a 0), Marina faz questão de enaltecer a campanha do time. “Temos que dar os parabéns para todo o elenco do Novo Mundo. Depois dos jogos contra o Atlético-MG (vitórias por 4 a 2 e 2 a 1), chegamos no nosso limite. O Santos é o time das estrelas, a Marta ganha mais de R$ 50 mil por mês, enquanto aqui as meninas trabalham de dia e treinam à noite, e se mantêm em forma jogando campeonato de várzea, peladão, metropolitano…”.
Para ela, o futebol feminino só vai se profissionalizar quando a CBF encará-lo com mais seriedade. “Tem de obrigar cada clube a ter um time de futebol feminino”, sugere. “E olha que com 5% do orçamento dos times masculinos já daria para manter uma equipe feminina.”
Marina compreende que o futebol das meninas ainda é visto como uma atração “exótica”, que desperta relativamente pouco interesse nos torcedores e, por tabela, na mídia e nos patrocinadores. Mas acredita que as coisas estão melhorando: “A mentalidade do torcedor brasileiro vem mudando por causa das nossas conquistas olímpicas. Hoje ele já é capaz de ir a um estádio para ver mulheres jogando bola. No jogo contra o Santos, tinha umas 13 mil pessoas no Couto Pereira. Tudo bem que estavam lá por causa da Marta e da Cristiane, mas foram ver o futebol das meninas.”
Com relação ao potencial do futebol feminino como negócio, a capitã não mede palavras: “Por que o Santos investiu no seu futebol feminino? Porque descobriu que dá dinheiro, tanto que quer fazer um CT (Centro de Treinamento) só para as meninas. Não temos a cultura de assistir futebol feminino pela tevê porque não passa… se tiver um campeonato de bom nível e ele for transmitido, o homem que não gostar de novela vai preferir ver o jogo das meninas. É um trabalho que precisa ser feito gradativamente. Esta Copa do Brasil foi um grande piloto para que isto aconteça.”
Marina também defende que sejam organizados mais torneios. “Não precisa fazer um campeonato enorme, basta a Copa do Brasil e alguns minibrasileiros ou regionais, com um quadrangular final para decidir o campeão brasileiro. Ou por pontos corridos, sei lá. Mas tem que colocar mídia e patrocinadores. A CBF consegue, só precisa de um pouco mais de interesse. Ela pode realizar dois torneios por ano, e a Federação Paranaense mais um.” E quando ela imagina que o futebol feminino terá esse grau de profissionalismo? “Daqui a uns 30 anos? Não sei se minhas filhas vão poder aproveitar, mas já é um começo.”
* * * * *
Serviço: Novo Mundo Futebol Clube, rua Frei Miguel Hilário Botacin, nº 5, Novo Mundo, fone (41) 8866-3879 (presidente Moacir).
Colunistas
Agenda
Animal


