Meu irmão disse uma vez que a nossa infância acabou no dia em que a Simony saiu na Playboy. A gente tinha visto a menina cantar “Ursinho Pimpão”, ora bolas! Como adivinhar que ela não só iria crescer como sair pelada em uma revista e ainda engravidar de um rapper preso? Revoltante.
Esses dias, tive uma surpresa parecida. Minha mãe contou que a Tia Paula seria demolida. Como? A “minha” escola? Passei dos três aos 13 anos lá. Aquilo sim era minha infância. Estudei lá com meu irmão e meus primos. Minha mãe e metade da família trabalharam ali. E vão demolir para fazer um prédio em cima? Ô, gente insensível.
Claro que, pensando friamente, não há porque imaginar que o prédio da escola fosse tombado pelo patrimônio público. Era só mais um colégio. Mas foi lá que eu me criei. E já que ninguém tem como evitar que a escola mude de endereço, resolvi pelo menos render minha modesta homenagem. Vai aí, uma lista de dez boas memórias que passei lá dentro:
• Os desfiles de dia das mães. A escola em peso fazia uma marcha até a Pracinha do Atlético. O hit era uma música que terminava assim: “Eu te lembro o chinelo na mão/O avental todo sujo de ovo/Se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe/Começar tudo, tudo de novo”.
• O dia em que eu e o meu irmão subimos ao palco do Guaíra vestidos de robô para um concurso de dança. Tudo para defender as gloriosas cores de nossa escola.
• A célebre banda marcial da escola, regida primeiro pelo Bola – que também era Rei Momo da cidade – e depois pelo grande Levi. Meu irmão era fuzileiro. Eu, caixa. Tocávamos de tudo. Desde um trechinho de Beethoven (que eu mal sabia quem tinha sido) até “Ilariê”, da Xuxa. Que eu sabia muito bem quem era.
• Ainda da banda. Lembro um dia, em público, em que estávamos prontos para atacar a dança do passarinho. Aquela do “Passarinho quer dançar”. Fomos obrigados a recuar na última hora. A Banda dos Bombeiros tocou antes a nossa música. Tivemos que apelar para “La Mer”. Decepção total.
• O supletivo de maternal. Acho que sou o único integrante da espécie humana que tem isso no currículo. Minha mãe entrou para dar aulas no maternal e precisei ser promovido antes da hora para o jardim de infância.
• O ano em que eu tive que convencer meus colegas de oitava série que o Lula, se fosse eleito, não ia tirar um quarto da casa deles para dar aos pobres.
• O dia em que eu marquei o meu único gol de cabeça até hoje. Um piá chutou a bola lá da nossa área e ela veio com força. Sem que eu soubesse o que estava acontecendo, a bola bateu na minha cabeça, enganou o goleiro e entrou. Fiquei com fama de craque.
• A primeira aula de História que tive com uma grande professora, a Leonídia. Estávamos acostumados com datas e nomes. Até aquele dia em que ela chegou falando de burgueses, Marx e Proust.
• A vez em que meu revolucionário irmão matou aula com meu primo. A cabeça dos dois ficou a prêmio e minha mãe teve que livrar a cara deles. Os tontos ficavam passando do lado do colégio. E a única providência para não serem reconhecidos tinha sido virar a camiseta do colégio do avesso.
• Os dias em que cantávamos o Hino da Escola antes de entrarmos. Era do Bento Mossurunga. E terminava assim: “Após a última aula/Nosso gosto é bem dizer/A Escolinha Tia Paula/É um recanto de prazer”.
Pois é. A última aula, pelo menos naquele prédio, parece que está chegando. E a escola até agora só ganhou um cronista de segunda para lembrar alguma coisa. Não importa. Foi tudo muito bom. E que venha o espigão que substituirá a escolinha. Tenho certeza que também vai trazer boas lembranças para muita gente.
Rogerio Waldrigues Galindo estudou na Tia Paula de 1979 a 1989.
E até hoje soletra as palavras usando a Cartilha da Abelhinha.
rgalindo@gazetadopovo.com.br
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