Histórico

O brasileiro e a fidelidade

Jennifer Koppe
18/02/2007 22:04
jenniferk@gazetadopovo.com.br
Há mais de 20 anos, a doutora em antropologia e professora da UFRJ, Mirian Goldenberg, estuda as diferenças de gênero no Brasil. Pesquisou a fundo a intimidade da atriz Leila Diniz, símbolo da libertação feminina no país, e a valorização da perfeição física pela mídia e pela sociedade (já foi entrevistada sobre o assunto pelo Viver Bem). Mas apesar das abordagens serem tão diversas, o tema infidelidade se tornava central em seus artigos e livros.
Goldenberg ficou fascinada pelo assunto e em 1997 escreveu A Outra, sobre o papel das amantes. Agora, dez anos depois, lança Infiel, que analisa o comportamento e a sexualidade dos casais brasileiros.
Ao me deparar com o subtítulo “Notas de uma Antropóloga”, logo imaginei ter de ler um relatório repleto de dados numéricos e termos acadêmicos, mas o livro está longe disso. A autora revela informações surpreendentes sobre as relações entre homens e mulheres e as diferentes concepções a respeito da traição conjugal, ao mesmo tempo em que intercala o resultado de estudos, depoimentos, reportagens e referências culturais com a curiosa história de Mônica, que descobriu na infidelidade uma chance de recomeçar a vida.
Simone de Beauvoir serviu de inspiração para a pesquisadora, que revela ter lido todas as obras da filósofa francesa e descoberto várias contradições no comportamento da feminista, que condenava veemente a instituição do casamento, mas era submissa ao amor de seus homens.
Serviço: Infiel – Notas de uma Antropóloga, de Mirian Goldenberg, Editora Record, R$ 44,90.
Ajuda
Meditação – A Primeira e Última Liberdade
Osho
Editora Sextante
Nesta obra, o líder espiritual tenta modificar a noção tradicional da meditação ao mostrar que a prática não precisa ser uma atividade separada da vida cotidiana e do mundo real. E ensina passo a passo mais de 30 técnicas de meditação e relaxamento para lidar com as tensões e agitações da vida moderna.
Letrinhas
João Felizardo, o Rei dos Negócios
texto e ilustração de
Angela Lago
Editora CosacNaify
João ganha uma herança – uma moeda –, que usa para comprar um cavalo, com o qual inicia uma série de trocas. O final surpreende e o sentido da história aparece com mais clareza se pais e criança conversarem um pouco sobre ele. As ilustrações são bonitas e o texto, pequeno (uma frase curta em cada página). Bom para crianças que estão se alfabetizando.
Clássico
O Livro das Ilusões
Paul Auster
O que faz de um livro um clássico pode render vasta discussão. Para mim, quando uma obra trata de temas e sentimentos universais com verdade já tem meio caminho andado para tal. É o caso de O Livro das Ilusões, do americano Paul Auster, um dos melhores escritores de sua geração. A história fala de tragédias familiares, perdas irrecuperáveis, atos que fazemos em nome do inesperado e que não se pode voltar atrás. Mas há o contrabalanço leve de que o amor, ou algo próximo a isso, existe e pode nos aliviar em alguns momentos das agruras da vida. O texto é muito parecido com um roteiro de cinema, complexo, cheio de reminiscências e flashbacks, bem ao estilo de Auster. Perpassa histórias que se entrelaçam por acaso, mas que acabam confluindo num final surpreendente e – desculpe o estraga prazer – amargo. Em sua investigação psicológica sobre o ser humano há espaço para o conflito. O bem e o mal, o certo e o errado, nunca estão totalmente distintos. Assim como na vida. Um clássico contemporâneo, com certeza.
Danielle Brito
Aspas
Tempo
A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte anos é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
Adélia Prado, em O Coração Disparado.
Eu leio
“Indico Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza e A Dupla Chama: Amor e Erotismo, ambos do mexicano Octavio Paz. O primeiro traz ensaios sobre a obra do artista Marcel Duchamp, um criador ousado, de idéias modernas, que criou um discurso artístico e filosófico inovador. Já o segundo trata das relações entre os indivíduos numa síntese espetacular. Tudo está escrito em poucas páginas: amor, erotismo, paixão, ódio, sexo, arte, filosofia, ciência, mitologia, fé, etc. É lenha na fogueira. Mantenha-o próximo, sempre.”
J. C. Branco, músico e geólogo.