“Criança tem cada uma!” Quantas vezes você já não ouviu essa frase? E vale para tudo: da reação a uma observação perspicaz demais para aquela pessoinha a um muxoxo de desculpas ao ser colocado pelo pestinha em uma saia-justa daquelas.
Alessandra não tem filhos, mas descobre no dia a dia da sala de aula o quanto essa convivência é forte. “A alma é alimentada diariamente. Mesmo que você esteja mal humorado, não tem como não dar uma risada com as coisas que eles fazem, com o toque, com um beijo.”
Para a assistente social e educadora brinquedista Ingrid Fabian Cadore, coordenadora sócio-cultural da Associação Serpiá, entidade que desenvolve programas de acolhimento para crianças e famílias, o mais bonito que uma criança pequena nos oferece é a delicadeza do olhar. “Basta a gente estar aberto para isso e podemos aprender essa delicadeza e expandi-la para outras pessoas.” Ela conta que, na Serpiá, os aniversários dos 200 pacientes são feitos de forma individual. “Um deles tinha uma banheira antiga em casa, sem água quente, e tinha uma grande curiosidade com aquela banheira. No dia do seu aniversário combinamos com a mãe e fizemos um banho quente para ele, com direito a patinho de borracha. Esquentamos a água de panelinha”, conta. “Se não tivéssemos desenvolvido essa delicadeza no olhar, teria sido um aniversário padrão.”
Na fase seguinte, aos 6 ou 7 anos, Ingrid acha que a lição mais bela é ser parceiro do jogo. “Os pais que jogam e brincam com seus filhos são parceiros da vida, fortalecem o vínculo afetivo.” Já os adolescentes nos trazem de volta ao mundo atual. “Com os meus filhos, que já têm mais de 30 anos, tive a chance de me reciclar”, conta.
Perdão
Outra lição que podemos aprender com os pequenos? A de que as crianças não levam tudo tão a sério. Preocupações são típicas de adultos. Até por isso, a molecada tem um dom muito especial: releva e perdoa com rapidez. “A gente podia aprender isso bem: ver dessa forma algumas situações nas quais fica carregando mais do que dá conta. A criança grita, chora, mostra rapidamente que não está dando conta. Depois, esquece”, analisa a educadora brinquedista Maria Cristina Pires.
E, claro, não podia faltar o brincar. “O adulto não faz mais isso, está tão envolvido com o trabalho, com as preocupações, que esquece de brincar, o que é restaurador em qualquer idade.”
Então brinque e aproveite para recuperar a alegria. “A criança é alegre, espontânea e nós vamos bloqueando. Esquecemos que ela precisa viver o hoje, brincar, para estar bem amanhã”, alerta a homeopata e pediatra Tami Kawase Seitz. Para ela, pais que são mais abertos recuperam a alegria com os filhos. Os mais fechados, no entanto, querem que a criança vire adulto cedo. “Os pais é que deveriam virar crianças, deitar, rolar no chão. Aprender a cantar, a botar a alegria para fora.”
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