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Noite dessas, lendo para meus filhos na hora de dormir, deparei-me com a seguinte frase, que abre Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato: “Numa casinha branca, lá no Sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de 60 anos. Chama-se dona Benta.”
O quê? Dona Benta, aquela vovozinha de cabeça totalmente branca, óculos na ponta do nariz e jeitão de anciã, tinha 60 anos! Sempre imaginei a vovó mais famosa da biblioteca como uma senhora de, no mínimo, 75 anos. Talvez porque a aparência dela, nas ilustrações tradicionais da obra de Monteiro Lobato, lembre a minha avó paterna, falecida aos 83 anos.
O contexto em que o livro foi escrito explica porque Monteiro Lobato imaginou que sua vovó tivesse aquela idade. Reinações foi escrito em 1931, quando a longevidade média dos brasileiros devia estar por volta dos 50 anos. O dado disponível no IBGE mostra expectativa de vida de 33 anos em 1910. Ou seja, lá por 1930, quando dona Benta “nasceu”, brasileiro que chegava aos 50 anos era velho; aos 60 anos, então, era um matusalém tão exótico que a ele se podia creditar toda a sabedoria do mundo (como fez Lobato com dona Benta).
Conforme a vida se torna mais longa, a juventude se prolonga. Ainda existem vovós, em 2007, com 60 anos, mas elas têm outra aparência e outras perspectivas na vida. Individualmente, os brasileiros mudaram a imagem que fazem de cada faixa etária e a forma como se vive cada fase. Coletivamente, entretanto, os progressos são mais lentos. Como grupo social, os sessentões (ou até os cinquentões) são vistos como profissionais no fim da linha e amigos e familiares tendem a esperar que não façam muitos planos ousados, como namorar ou voltar a constituir família. Ou se aceita suas atitudes menos convencionais como maluquices de quem já não tem mais o que perder…
Não adianta – o parâmetro de cada ser humano é sempre o seu umbigo. Se tenho 20 anos, acho que quem tem 40 já está dobrando o Cabo da Boa Esperança. Se tenho 40, quero acreditar que sou uma criança e acho que não se pode esperar muito de quem tem 60 anos. Dona Benta, em 2007, teria que ter uns 80 anos para ser a vovozinha sonhada por Monteiro Lobato, mas ninguém iria acreditar que ela sabe tudo.
Marleth Silva é editora-executiva de cadernos.
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