Histórico

Sobre amigos e tiranos

José Carlos Fernandes
José Carlos Fernandes
01/10/2007 01:44
Em 1985, durante um curso avulso de Filosofia, caiu em minhas mãos um texto de Marilena Chauí sobre Etienne de La Boétie, pensador que em meados do século 16 escreveu um dos mais festejados ensaios sobre a amizade de que se tem notícia – “Discurso da servidão voluntária.” A preciosidade foi para uma pasta de plástico alaranjada, onde descansa até hoje junto a uma papelada da qual não pretendo me desfazer. Volta e meia nos reencontramos.
A razão de tanto afeto, para mim, é só uma: temos a certeza secreta de que algum dia vamos querer de volta as imagens e as palavras que amamos, pois nela ficaram impressas um pouco do que somos. Ou, pelo menos, do que fomos. Pois lembro muito bem da força que a palavra amizade ganhou para mim naquele ano em que Tancredo Neves nos deixou – ao som de Fafá maltratando o “Hino Nacional” – , e que Tetê Espíndola nos deixou boquiabertos com seus trinados – vencendo o Festival da Globo com a mais-que-perfeita “Escrito nas Estrelas”
Foi também o ano em que me formei em Filosofia e deixei para trás grandes amigos. Na nossa colação – como era moda na época – Heloísa, a colega por quem todos eram Abelardos apaixonados, fez um solo competente de “Canção da América”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Mas nada que ameaçasse retirar de La Boétie o posto de guru. Afinal, vinha dele a carta de intenções que planejávamos cumprir pelo resto de nossos dias.
Para o filósofo, a amizade é uma espécie de arma contra a tirania. Só floresce “entre pessoas de bem e não pode existir onde há crueldade, injustiça e deslealdade.” Experimentá-la é um passaporte para a verdadeira liberdade – a liberdade que só existe entre iguais. E iguais não temem uns aos outros. Onde alguém se converte em senhor, dizia La Boétie, encerra-se o direito à fala. Onde não há palavra, logo, não existem amigos.
Promover a amizade é a maneira mais revolucionária de impedir que uns escravizem os outros. O tirano, afinal, está sempre prestes a tomar posse de sua cadeira, sustentado pelos que o servem, silenciosos, à espera de um dia se tornarem tiranos também. Ao longo dos séculos, chamaram essa lógica de utopia juvenil, uma bobagem de um pensador ainda em cueiros. Mas o que se viu é que o tempo só fez bem a La Boétie.
O mais curioso é que diversos filósofos, como Hannah Arendt, Michel Foucault e Jacques Derrida, escreveram sobre a amizade. Mesmo sem fazer as honras devidas a La Boétie, nenhum deles conseguiu se distanciar da dimensão política desse sentimento, tal como traçou o filósofo. Graças a esse pensador pouco citado, a amizade não fica reduzida a uma mera receita de fraternidade ou a um assunto privado. Afinal, a tentação de compará-la ao amor familiar é tamanha. Não à toa, diz-se comumente do amigo que é tanto quanto ou mais do que um irmão. Eu mesmo contabilizo uns tantos a quem já disse essa frase bem-intencionado, porém incapaz de dar conta da realidade. Aposentei-a de vez há poucos meses, quando assisti ao documentário Vinícius, de Miguel Faria Júnior, e fiquei paralisado com o depoimento da cantora Miúcha.
Ela lembrou a teoria do Poetinha sobre a “amizade”, ele, sim, uma autoridade contemporânea no assunto. Dizia coisas do gênero: amizade não se faz, acha-se por aí. Vinícius, talvez sem querer, recupera uma das leituras mais saborosas do texto de La Boétie – a que dá à amizade, além da dimensão política, uma aura anárquica e libertária. Ela não tem regras, é pré-existente, está solta no ar. Logo, pode surpreender o tirano. Se a tese é racional ou não, pouco importa. É bom acreditar que existe uma explicação para a maneira misteriosa como encontramos nossos amigos. De supetão, eles nos assaltam, para sempre.
É algo tão bom que mal nos preocupamos em teorizar a respeito, daí discursos sobre a amizade parecerem tão inúteis. Mais fácil é tratá-la como cesta básica da vida. Quando somos pequenos, os pais se preocupam se não fazemos amigos. Na adolescência, ressentem-se porque preferimos os amigos a eles. É como se nos aconselhassem a beber com moderação. Pena ninguém nos dizer que por intermédio da amizade podemos redefinir a ordem do mundo.
Para sanar essa falha, nada melhor do que ter La Boétie por perto. Mas pode-se recorrer também a Montaigne – que dedicou a La Boétie o ensaio “Da amizade”, tão caloroso quanto perigoso, já que em maltraçadas linhas nega que as mulheres possam ser amigas de alguém. Pois é. Vale também o socorro de Foucault, que trata a amizade como uma espécie de estética da existência. A vida é bela quando ampliamos nossas possibilidades de relacionamento com o outro. Ou ainda Hannah Arendt, para quem estar no mundo é transgredir a ordem política por meio da hospitalidade, da cortesia, mas sobretudo da amizade. Ter amigos é experimentar a humanidade. Com uma condição: tem de ser de igual para igual.
José Carlos Fernandes é repórter e deu de reencontrar velhos amigos. Recomenda.
jcfernandes@gazetadopovo.com.br