Se você estiver passando pela Itália, e estiver pertinho de Verona ou de Veneza, pode dar uma paradinha em Vicenza, que fica logo ali, e ver se a minha bicicleta ainda está no estacionamento da estação de trem. Deixei-a lá em 2005, quando, após uma temporada europeia, estava me preparando para retornar ao Brasil. Ainda tenho as chaves do cadeado. Não sei se essa proteção impediu alguém de levá-la embora, mas é possível que ainda esteja onde a deixei. Quando a vi pela última vez, ela tinha a companhia de umas 300 bicicletas. Era um entra-e-sai danado, sem ninguém para controlar nada. Por que iriam mexer justo na minha?
O tempo deve ter sido cruel com minha bicicleta e, se ela ainda existir, estará com os pneus murchos e toda enferrujada. Mais um motivo para ninguém se dar ao trabalho de arrebentar as traves e depois ter de gastar dinheiro consertando-a.
Usei a bicicleta por dez meses, durante uma temporada na Alemanha e na Itália. Na hora de voltar ao Brasil, não quis deixá-la para quem quer que fosse. Deixei a bicicleta no estacionamento porque tinha a intenção de reencontrá-la.
Minha experiência na Itália – onde morei por seis meses para fazer minha cidadania italiana – não foi das mais agradáveis. A vida de imigrante (distância da família e dos amigos, grana curta, papelada, burocracia etc.) não foi muito legal. Por isso decidi voltar para Curitiba. Um tanto ressentida, claro. Na época pensei que, para apagar as mágoas, seria fundamental voltar para a Itália e ficar um tempo lá numa boa, só passeando e curtindo.
A bicicleta seria então resgatada do estacionamento e me acompanharia por várias cidades italianas, me conduzindo por ruelas e ladeiras que meus pés não trilham com tanta satisfação. Minha alegria seria tão grande que ficaria em paz com a Itália – o plano completo previa ainda a gastança de muitos euros, de preferência desdenhando os vendedores italianos mal-educados que só sabem gritar.
Mas o tempo foi passando e ainda não voltei. Dia desses lembrei da bicicleta estacionada em Vicenza. Terá sobrevivido? Para matar as saudades, procuro e acho uma foto dela, ao lado da boxer da minha colega húngara, com quem morei. Mas a bicicleta está coberta de neve, quase irreconhecível. Alguém aí conseguiria encontrá-la?
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