– Alô!
– Oi perua, tudo bem? E aí, vamos passar o réveillon na praia?
– Vamos! Mas que praia? Como?
– O chefe do Maridão tem uma casa em Pontal. Ele não vai estar lá e liberou a casa.
– Certeza? Mas a gente nem conhece o cara.
– Certeza! Eles vão passar o ano-novo fora.
É claro que não podia dar certo. Um casal chama outro para passar o fim de ano na casa de uma terceira família, completamente desconhecida dos convidados. Quase nada a favor da empreitada. Mas lá se foram todos: as amigas, seus biquínis, o jogo de frescobol, os Maridões, uma avó e duas crianças.
Oito e qualquer coisa da noite, 30 de dezembro. A casa do Chefe devidamente ocupada: amigas na cozinha, Maridão 2 esparramado no sofá com os pés na mesa de centro, Maridão 1 tentando acalmar a cachorra do Chefe, desesperada com os fogos de artifício, e as crianças curtindo um banho de espuma – dentro e fora da banheira. Bagunça produzida de forma muito eficiente com o xampu que estava no banheiro. Comportada mesmo só a mãe do Maridão 1, que assistia a novela. Contrariando a lógica, tudo ia muito bem, obrigada.
Até que o Maridão 1 – o funcionário do chefe, lembra? – entra em casa, com os olhos azuis arregalados e anuncia: “O Fred está ai!”
– “Fred? Quem é Fred?”, pergunta inocente a convidada.
– “Como assim o Fred?”, exclama a incrédula e, a essa altura, ex-anfitriã.
– “O dono da casa”, esclarece o Maridão 1, para desespero geral dos invasores.
Sim, o Chefe estava lá, junto com a esposa e os dois filhos. Na mesma fração de segundos, o pé do Maridão 2 sai da mesa e entra de novo no tênis. As crianças somem dentro do banheiro. As amigas, paralisadas, assistem atônitas os donos da casa desembocarem porta adentro. O silêncio constrangedor é cortado por gargalhadas nervosas dos invasores… “Sintam-se em casa”, é o máximo de espirituosidade que a esposa do Maridão 1 consegue imaginar. Rápida de raciocínio mesmo só a avó, que imediatamente anunciou que estava ali para ver os netos, e que iria dormir na casa do irmão, instalado a duas quadras.
Impossível descrever tudo o que aconteceu nas duas horas seguintes. Apresentações apressadas, desculpas e justificativas de toda a parte, ameaças entre dentes de esposas para Maridões e vice-versa, olhares fulminantes para crianças barulhentas, corrida ao mercado para engrossar o jantar e até visitas de última hora. Tudo, ao mesmo tempo, agora! A chegada absolutamente inesperada dos donos da casa exigiu reengenharia na distribuição das camas e aposentos, pra dizer o mínimo necessário numa situação dessas.
O dia seguinte foi de planejamento para a virada do ano. Graças ao espírito esportivo e camaradagem dos donos da casa, todos se recuperavam do susto, ainda que constrangidos. Surge então uma nova proposta: ceia na casa da irmã do amigo do Chefe. Nova troca de olhares desesperados… Em menos de 24 horas, seria outra invasão. Desta vez, em comboio organizado para atacar o espumante alheio. Estava fundado o MSCP – Movimento dos Sem-Casa na Praia. E de repente, outra “anfitriã” viu sua casa ser invadida por desconhecidos. A contagem regressiva foi interrompida pelas apresentações. Fogos de artifício, brindes, ondas devidamente puladas e todas as simpatias garantidas. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos!
Antes de terminar, é preciso esclarecer algumas questões:
Não, o Maridão 1 não foi demitido.
Sim, todos os casais continuam juntos.
Sim, uma amiga ainda aceita os convites da outra. Apesar de sempre esperarem qual vai ser o próximo mico que vão pagar juntas.
Cinthia Scheffer é repórter de Economia e Anna Paula Franco é editora do Interior. Elas garantem que passaram o réveillon bem longe de Pontal. Em Búzios! cinthias@gazetadopovo.com.br
apfranco@gazetadopovo.com.br
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