Turismo

A nova fase do Hotel Chelsea

Nova Iorque - Agência Estado
11/09/2008 03:03
Na época áurea, o local era centro de atividades artísticas e boêmias. Vibrava com as festas no lobby e ganhava notoriedade com barracos e incidentes inesquecíveis. Como quando o hotel quase virou cinzas nas mãos de Edie Sedgwick, a musa de Andy Warhol, que esqueceu velas acesas durante uma noite de insônia. Ou testemunhou suicídios e assassinatos: Sid Vicious, do Sex Pistols, matou a namorada, Nancy Spungen, em um de seus quartos, em outubro de 1978.
E assim se fez o mito. O Chelsea está imortalizado em filmes, músicas e quadros, homenagens de hóspedes ilustres que fizeram de tudo ali. Escreveram, pintaram, gravaram. Enfim, viveram para colocar o nome do hotel na lista dos prédios históricos de Nova Iorque.
Parte dessa energia criativa o visitante ainda sente ao entrar no preservado prédio de tijolinhos vermelhos, no lendário número 222 da Rua 23. Telas no mínimo estranhas – presente de antigos moradores-artistas –, a parede amarela, uma boneca pendurada no teto e móveis antigos marcam o estilo kitsch do lobby. Apesar do ambiente, o atendimento é prático e impessoal. Diárias a partir de US$ 199 (R$ 314), sem café. O Chelsea virou um hotel comum. É isso.
O glamour e o clima boêmio ficaram para trás desde que o gerente Stanley Bard, no comando do Chelsea desde o fim da década de 50, foi expulso do cargo, em junho do ano passado. Verdade seja dita: Bard sempre gerenciou o Chelsea da maneira mais inconveniente possível. Alugava quartos para artistas com pouco dinheiro – bastava o hóspede mostrar o portfólio na recepção. Bard também era artista. E aceitava obras como pagamento.
Tal “irresponsabilidade” levantou e arruinou o Chelsea a um só tempo. Com a situação financeira de mal a pior, os administradores decidiram, enfim, intervir. Demitiram Bard e contrataram uma companhia hoteleira para reerguer o empreendimento. Hoje, são 150 quartos para hóspedes. Ninguém mais pode alugar uma suíte para morar no Chelsea.
O fim de uma era
Os moradores das antigas – cerca de 200 pessoas ainda vivem no hotel – lamentam o “fim de uma era”. “Mudou completamente o contexto”, reclama a fotógrafa portuguesa Rita Barros, que mora desde 1984 no apartamento onde Arthur C. Clarke escreveu 2001: Uma Odisséia no Espaço.
Acostumada à “maluquice” dos anos 1980 em Nova Iorque – e aos encontros com artistas como Woody Allen, Jon Bon Jovi e Courtney Love nos elevadores do hotel –, Rita conta que sempre havia algo acontecendo no Chelsea. Aliás, tudo o que ela viu e fotografou em todos esses anos deu origem ao livro 15 Anos: Chelsea Hotel.
“Nossas portas ficavam abertas, encontrávamos os vizinhos no corredor e fazíamos reuniões no lobby”, lembra. “Hoje, é apenas um entra-e-sai de gente diferente.”
Apesar de ser uma lenda, nada no Chelsea é muito moderno ou prático. Os elevadores de madeira são tão velhos que não basta fechar a porta e apertar o andar. O turista vai passar minutos ali e o elevador não vai subir. Experimente, então, apertar aquele botão com duas setinhas que significa fechar a porta.
Em cada andar, um longo corredor escuro e frio. Os passos fazem barulho no chão de madeira. As portas estão fechadas e resmungam quando algum turista as abre. Nas paredes, mais quadros doados por artistas-moradores.
Hoje, o hóspede do Chelsea está interessado na boa localização – a poucas quadras do Empire State Building – ou quer reviver o passado histórico. E, com sorte, sentir a verdade por trás do slogan do hotel: “um lugar de descanso para indivíduos raros.”
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Serviço
www.hotelchelsea.com