Turismo

A outra Cidade Maravilhosa

Paulo Camargo
16/11/2006 21:19
Lá pelos idos de 1880, quando a Austrália ainda era considerada uma terra de ninguém, distante e algo selvagem na visão preconceituosa dos europeus, Melbourne fervilhava. Tanto que, como o brasileiríssimo Rio de Janeiro, ganhou o apelido de Cidade Maravilhosa. Mas, ao contrário da capital fluminense, que sempre encantou gregos e troianos com suas impressionantes belezas naturais, a metrópole da Oceania conquistou o título por conta do progresso, da rapidez com que cresceu e apareceu aos olhos de quem lá punha os pés para fazer fortuna.
Um pouco mais de 50 anos antes de merecer o título de “Wonderful Melbourne”, a cidade australiana havia sido fundada por John Batman (nenhum parentesco com o Homem-morcego, herói do cinema e dos quadrinhos), filho de um criminoso condenado de Sydney, assim como a maior parte dos pioneiros australianos.
Ao longo de apenas duas décadas, o vilarejo conseguiu evoluir de um povoado desordenado, cheio de barracas enlameadas e gente mal-encarada, a uma cidade capaz de surpreender qualquer um que duvidasse da possibilidade de existência de civilização ao sul da Linha do Equador. A razão de tamanho desenvolvimento? Ouro, muito ouro.
A corrida pelo metal precioso levou ao estado de Vitória milhares de aventureiros transformados em garimpeiros e o inevitável aconteceu: a riqueza gerada pela extração do mineral em pouco tempo se tornou visível em grandiosos edifícios públicos no melhor estilo vitoriano, luxuosas residências e um comércio digno dos padrões da pátria-mãe, a Inglaterra.
Aliás, Melbourne, desde o final do século 19 um importante centro industrial e financeiro, talvez seja a mais britânica entre as grandes cidades da Austrália. Situada a cerca de 900 quilômetros de Sydney, a metrópole reclama para si ares londrinos. E com certa razão. A começar pelo clima, menos ensolarado e mais instável do que em outros centros do país, como Sydney ou Brisbane. A semelhança, no entanto, não se limita às variações climáticas.
Vida cultural
Como a capital do Reino Unido, cortada pelo Tâmisa, Melbourne também é singrada por um rio, o plácido porém imponente Yarra, às margens do qual a cidade se desenvolveu e ainda respira. Falando nisso, um dos programas imperdíveis para quem deseja compreender o espírito de Melbourne é fazer uma boa caminhada ao longo do rio. De jovens executivos desfrutando de fumegantes copos de café no horário de almoço a gente em busca de boa forma, correndo nas trilhas entre as árvores que margeiam o rio, você vai encontrar uma fauna humana bem variada. Sem falar dos artistas de rua, músicos, mímicos e performers que acrescentam à paisagem urbana um colorido extra e bem-vindo quando o nível de estresse se eleva.
E esse é outro ponto que também aproxima Melbourne de Londres: a vibrante vida cultural da cidade. Uma das maiores coleções de pinturas e esculturas de diversos períodos pode ser vista na National Gallery of Victoria. Outra parada imprescindível para o visitante é o Victorian Arts Centre, centro cultural que abriga o Australian Ballet e a Melbourne Theatre Company. Muito próximo ao Yarra, o prédio possui uma agulha de 115 metros, o que o torna um cartão-postal da cidade, visível de praticamente qualquer ponto do Centro, que é razoavelmente compacto e pode ser visitado a pé ou de trolley.
O projeto arquitetônico do Victorian Arts Centre exemplifica bem uma das principais características de Melbourne: o harmonioso casamento entre o moderno e o antigo. Prédios históricos maravilhosos como a Flinders Street Station (1910), principal terminal ferroviário da cidade, convivem com o arrojo de edificações moderníssimas como as Rialto Towers (1986), o mais alto edifício de escritórios do Hemifério Sul, como 58 andares acima do nível da rua e oito abaixo e 253 metros de altura.