Não há dúvidas de que Buenos Aires é uma cidade extremamente charmosa. De fato é o contraste de uma cidade cosmopolita, moderna, grande e ao mesmo tempo, aconchegante e secular. Existem inúmeras atrações turísticas, mas duas coisas simples e que valem a pena são: passear durante o dia e a noite na Plaza de las Naciones Unidas, para dar uma conferida na Floralis Genérica, uma escultura metálica do arquiteto Eduardo Catalano (uma flor aberta de metal dentro de um espelho d’água que, durante a noite, se fecha e fica com uma iluminação vermelha, linda!). A outra é deliciar-se na sorveteria Volta, neste mesmo bairro, Recoleta.
Após sete dias, passeando de metrô e táxi (não vale a pena enfrentar o trânsito de carro, estes meios de transportes são acessíveis, práticos e baratos); comendo muito alfajor, bife de chorizo, sorvete (a comida é muito boa); descobrindo os parques, museus, cemitério, cafés… jantamos em um restaurante com mesas em um terraço de frente ao rio, com uma vista maravilhosa do bairro Puerto Madero (o qual possui uma arquitetura inovadora e muito romântica); conhecemos o bairro La Boca (muito colorido e alegre); fizemos compra na Florida (muitas coisas baratas); dançamos tango, enfim, adoramos a capital da Argentina.
Seguimos viagem muito animados em rodar com veículo próprio, devido a liberdade e flexibilidade. Poder parar a qualquer hora e em qualquer lugar para bater uma foto ou contemplar belas e distintas paisagens é a melhor coisa que viajar de carro proporciona. As estradas são bem conservadas e a gasolina é barata. A única desvantagem é a corrupção da polícia rodoviária, nos pararam apenas uma vez, contudo nos pediram propina, é lamentável!
Longas e intermináveis retas surgiram e se tornaram cada vez mais freqüentes durante nossa viagem. Próxima parada foi Puerto Madryn, chegamos de madrugada, todavia depois de mais ou menos uma hora conseguimos encontrar um hotel limpo e barato para nos hospedarmos. A cidade portuária é um ponto de acesso para vários passeios relacionados à fauna e flora patagônica. Próximo a Puerto Madryn situa-se a reserva faunística Península Valdés, a qual fomos conhecer no outro dia. Esta reserva possui uma das maiores concentrações de animais marinhos do planeta. Pudemos vislumbrar a natureza intocada, fria, árida, sem vegetação, com vento forte e cores contrastantes. No interior da península existem três salares (pequenos desertos de sal), coelhos selvagens, tatus, raposas, guanacos, leões-marinhos, elefantes-marinhos, entre outros animais que pudemos observar a poucos metros de distância ou através de telescópios afixados junto à margem.
Uma coisa que nos impressionou e nos ajudou muito durante a viagem foi o horário, pois o pôr do sol era próximo das 23 horas, ou seja, às 20 horas lá parecia 15 horas aqui no Brasil (com o sol forte e intenso), assim conseguíamos aproveitar bastante o dia que era bem longo. Na manhã seguinte fomos para Punta Tombo que também é uma reserva próxima de Puerto Madryn com a maior colônia continental de pingüins de todo o mundo, chegando a abrigar mais de duzentos mil desta ave. A região é repleta de pingüins e é possível caminhar e interagir com eles. A visita a pingüinera vale a viagem, pois é magnífica a paisagem e é muito interessante observar o comportamento e chegar incrivelmente perto dos pingüins.
Continuamos com destino a El Calafate, quanto mais viajávamos para o sul, mais nos deparávamos com diferentes paisagens. Assolada por ventos constantes e tão fortes que sentíamos a camionete balançar, parecia que o vento nos arrastaria. A patagônia caracteriza-se por uma área tremendamente árida de vegetação rasteira e desértica, com uma imagem desoladora, onde uma estrada segue por quilômetros e mais quilômetros no meio do nada. Estávamos com nosso espírito aventureiro aguçado e decidimos cortar caminho e seguir por uma estrada de rípio (pedras pequenas arredondadas) para que pudéssemos chegar o mais rápido possível. Ganhamos algumas horas com esta alternativa, entretanto os pneus sofreram muito desgaste.
Chegamos a El Calafate também de madrugada, fomos procurar um hotel e sem demora encontramos, pois haviam muitos hotéis bons, contudo todos muito caros (aliás, tudo lá é muito caro). Cidade fascinante, cheia de atrativos e com gente hospitaleira. Acordamos bem cedo para podermos fazer o passeio com um Catamarã à motor no majestoso Parque Nacional Los Glaciares. Com o barco fomos entre os lagos Argentino e Viedma, onde fica a zona central da reserva, cuja principal atração é o Glaciar Upsala, o maior da América do Sul. Apesar da distância que o barco mantêm da geleira, a vista que se obtêm de baixo para cima é impressionante dá uma perspectiva da imensidão do Glaciar. Estava um dia frio, um pouco nublado, com uma chuvinha fina que começava e parava, mas o sol nos presenteava e aparecia às vezes para tornar o passeio ainda mais excepcional, porque a cor do azul das geleiras e icebergs ficava ainda mais intensa e realçada, parecendo um cristal. Paramos para almoçar em uma ilha com um único restaurante e uma floresta extremamente verde, com icebergs ao redor da ilha, os quais pudemos tocar, pisar e sentir o frio congelante da água. O cenário apresenta características peculiares, montanhas com picos nevados, lagos, icebergs, geleiras, regiões florestais, cachoeiras, enfim um lugar imaculado!
Após este passeio fantástico, como a noite ainda era dia, resolvemos ir até o parque Nacional Los Glaciares de camionete. Uma dica, o parque costuma ficar aberto e quem chega antes ou depois do horário dos guarda-parques (8h – 19h) não tem que pagar o ingresso para entrar, como chegamos depois das 19h não tivemos que pagar. Em comum acordo, foi o passeio mais barato e mais emocionante da viagem, onde pudemos conhecer na parte sul do parque, o Glaciar Perito Moreno que é a mais famosa e espetacular geleira do continente, se não do mundo. No parque existem muitas passarelas que possibilitam à vista panorâmica de todos os ângulos, concedendo uma idéia da imponência e grandiosidade do Perito Moreno. As pessoas vão ao parque conhecer e sentam nos bancos ou ficam em pé nas passarelas, aguardando o espetáculo que é o ranger de um pedaço de geleira se soltando e logo após, o estrondo ao cair no lago. Alguns turistas passam o dia inteiro aguardando, mas nós fomos abençoados, chegamos e ficamos em pé vislumbrando uma vista que nos hipnotizou (parecia formar uma pintura em um quadro) e em alguns minutos uma parte enorme de gelo se desprende e cai. As pessoas batem palmas, gritam, vibram, fotografam, filmam… realmente é um espetáculo! Eu particularmente me emocionei ao ver o show promovido pela natureza, quando paredões de gelo desprendem-se, provocando um estrondo muito alto ao cair. Só de pensar que daqui a poucos anos o cenário pode ser completamente diferente devido ao aquecimento global… acreditamos que todo mundo tem que conferir!
No outro dia fomos fazer um passeio muito divertido e bem interessante. Fomos caminhar sobre o Glaciar Perito Moreno, o passeio é chamado de Big Ice (minitrekkings). Saímos de um lugar do parque com um barco inflável para atravessar o lado sudoeste do lago Argentino e chegarmos em um ponto apoio na base da geleira. Lá recebemos o equipamento adequado, instruções e nos preparamos. Tivemos que subir por uma trilha na montanha durante uma hora, nada muito agradável, assim como os guias nada cordiais. Para daí sim, contemplarmos de cima o imenso rio de gelo. Ao chegarmos na geleira tivemos que colocar os grampos nas botas para que pudéssemos caminhar sobre o gelo e aí então seguirmos com os trekkers em fila indiana, um atrás do outro. Passamos por fendas no gelo, por dentro de uma cova (túnel) de gelo, foi uma grande aventura com uma vista exótica e deslumbrante!
Continuamos a seguir viagem, mas agora subindo, rumo a San Carlos de Bariloche, quer dizer, na realidade estávamos querendo percorrer parte do trajeto da Carretera Austral, por conseguinte em um trecho da estrada de rípio um de nossos pneus literalmente desmanchou e tivemos que mudar os planos. Paramos para trocá-lo em meio a um terreno totalmente inóspito, chovia e fazia muito frio. Devido a nossa preocupação com a segurança, havíamos passado uma corrente para evitar que roubassem o estepe, mas para nossa surpresa e tristeza, o cadeado da corrente estava cheio de terra e a chave não entrava na fechadura. Tentamos de tudo, limpá-lo, cortá-lo, serrá-lo… apenas conseguimos quebrar a chave dentro do cadeado e o Leonardo cortou o dedo de uma forma preocupante. Fizemos um curativo e continuamos a luta. Não passava ninguém por aquela estrada, estávamos no meio do nada, apenas com ovelhas, lebres e o Leonardo com o dedo machucado dificultando ainda mais a solução do problema. Só conseguimos resolver após desmontarmos parte da carroceria para poder apoiar o macaco na corrente e romper o cadeado. Depois de duas horas de sofrimento, decidimos ir até a cidade mais próxima adquirir um pneu novo, ou seja, tivemos que mudar a rota que nos levaria a Carretera e acabamos seguindo em um rumo que nos levou a Bariloche.
Durante o trajeto, pelas cidadezinhas que passamos, não havia nenhum posto de gasolina (aliás, até tinha o posto, mas faltava gasolina) e muito menos nenhuma borracharia. Já havíamos utilizado todo o combustível reserva que tínhamos levado… enfim, chegamos em Esquel, procuramos hospedagem, mas não conseguimos nada que nos agradasse, fizemos um lanche, trocamos o pneu, abastecemos e achamos melhor seguir viagem. Entretanto não foi uma boa idéia, pois ao chegarmos em El Bolsón de madrugada (para variar), todos os hotéis estavam lotados (alta temporada), tivemos que dormir no carro, no estacionamento de um camping.
Acordamos muito cedo, fomos conhecer a cidade e tomar um café da manhã, por sinal uma cidadezinha muito simpática. Continuamos a seguir para Bariloche, por sorte havia nevado fazia dois dias (não costuma nevar no verão), os picos das montanhas estavam brancos e nos entornos das estradas havia neve. A neve tornou a paisagem ainda mais bonita. Bariloche é uma cidade envolvente e encantadora, não apenas pelo seu estilo arquitetônico rústico, mas também, as montanhas, o lago com várias tonalidades de azul completam o visual. Fomos visitar uma cidade próxima que se chama Villa la Angostura, cidadezinha pequena similar a Bariloche em seu estilo. Aproveitamos para fazer um charter de veleiro no lago Nahuel Huapi, pois adoramos velejar e não resistimos. Apesar de o passeio ser caro foi uma forma de contemplar a paisagem por outro ângulo. Ao voltarmos para Bariloche, aconteceu a situação mais chata e triste da viagem. Estacionamos a camionete no centro da cidade (na rua mais movimentada), pois fomos jantar e para nossa desagradável surpresa, quebraram o vidro e roubaram uma mochila com alguns de nossos pertences, o que incluía uma de nossas máquinas fotográficas, dois cartões de memória com muitas fotos que tiramos desta viagem, GPS, entre outras coisas… Além de tudo, o descaso da polícia nos entristeceu ainda mais. Prosseguimos a viagem, afinal infortúnios acontecem. Aprendemos a lição “É melhor uma pequena cautela do que um grande remorso.”
Era hora de rumar ao Chile, mais precisamente a Puerto Montt. Planejamos com cuidado a nossa viagem pelo Chile, pois a gasolina é muito cara, quase o triplo do preço da gasolina no Brasil e o pedágio também é caro. Em compensação a hospedagem, pelo o que proporcionava, não era assim tão cara. Pudemos desfrutar de um hotel excelente à beira da baía, com uma fachada toda de vidro e uma vista bonita do mar, onde eventualmente apareciam vários leões-marinhos para nos alegrar. Por sorte este era anexo a um shopping center, no qual fizemos compras de roupas, sapatos, eletrônicos, brinquedos, com preços bem acessíveis. Ao final da avenida litorânea existe um agitado mercado de peixe, a princípio não gostei do ambiente e queria sair correndo de lá, mas como nos indicaram um restaurante resolvemos conferir. Entramos em uma portinha que dava para umas mesas e uma cozinha aberta, duas senhoras muito simpáticas nos atenderam, meu noivo resolveu experimentar os locos, mariscos super desenvolvidos tradicionais da região. A comida era muito saborosa e fresca, mas o lugar não era muito agradável, no fim valeu a pena.
Saímos cedo para conhecer e subir nas encostas do incrível Vulcão Osorno. Perfeitamente simétrico, é um dos símbolos do Distrito dos Lagos. Quando começamos a percorrê-lo observamos um terreno com crateras e um solo negro chamuscado. No teleférico conseguimos avistar os contrastes surpreendentes das paisagens formadas por imensos lagos de águas cristalinas, densas florestas verdes e vulcões nevados dormentes. Próximo ao cume aproveitamos para deslizar na neve. Na volta passamos por Puerto Varas, uma cidade toda arrumada conhecida pelos seus belos jardins e gramados verdinhos juntamente com uma vista esplêndida de dois vulcões, Osorno e Calbuco, que se destacam em meio a orla marítima, os quais pudemos ficar apreciando. Os vulcões privilegiam a formação de fontes de águas termais, atração turística para a região .
No outro dia cedo estávamos indo à Villarrica e fizemos um pequeno desvio para averiguar se o Oceano Pacífico era igual ao Oceano Atlântico. O caminho pelo qual passamos para chegar até as encostas do vulcão Villarrica era muito bonito, um território virgem, com a estrada passando por altas montanhas nevadas, lagos e rios de cor turquesa. Entretanto impressionante mesmo, foi a próxima parada em Pucón, no lago Villarrica, onde pudemos desfrutar de uma vista sublime do vulcão homônimo, saindo de seu topo uma fumaça branca e ainda por cima, contemplar o pôr-do-sol alaranjado. Pucón, centro tradicional de turismo, charmosa cidade pequena e com uma estrutura privilegiada, transmite uma sensação de ostentação e jovialidade, cheia de atrativos, com vários cafés e lojas movimentadas. Está à sombra de um vulcão e às margens de um lago azul escuro repleto de lanchas, barcos, veleiros… Saímos tarde de Pucón, após termos jantado em um restaurante muito romântico à beira do lago, jantamos a luz de velas com uma música ambiente ao som de Luís Miguel e uma vista sensacional. Demorou bastante para nos servirem o jantar, que estava bem saboroso, neste tempo aproveitamos para namorar. Procuramos um lugar para dormir, tudo era extremamente caro. Decidimos então rumar com destino a Junin de los Andes na Argentina. Para que pudéssemos seguir viagem teríamos que passar pela Cordilheira dos Andes e pela aduana. Imaginávamos que esta aduana também ficava aberta 24 horas, só que estávamos enganados. Ao chegarmos próximo a aduana, no posto policial Chileno, os policiais nos pararam e acharam estranho e engraçado o horário que estávamos passando por lá. Foi uma benção, pois ainda tínhamos mais duas horas de viagem e estávamos com muito sono e os policiais disseram que poderíamos dormir dentro do carro estacionado no posto policial. Dormimos mais uma vez no carro e ao amanhecer seguimos viagem, só aí que fomos perceber como a estrada era estreita, escura, com pouca sinalização, nas margens da montanha. Ainda bem que paramos para descansar, pois além da estrada perigosa, teríamos uma longa viagem pela frente. Resolvemos tocar direto até Buenos Aires, por dois motivos, um porque a data de retorno estava próxima e o outro, porque ficamos com medo de não conseguirmos sair de Néuquen, surgiram alguns contratempos, pois os ruralistas estavam fechando as estradas e nos informaram que normalmente demoram de dois à três dias para liberarem. Tivemos que cruzar algumas fazendas para continuar a viagem, com direito a atolarmos em uma plantação de pêssegos. Na volta fizemos um trajeto diferente da ida, mais em conta, cruzamos a fronteira com o Brasil na cidade de Uruguaiana.
Com muita poeira nas bagagens e recompensados com a beleza suntuosa desses locais isolados, retornamos com bastante história para contar de uma viagem inesquecível.
Arethuza Luna, 28 anos, dentista.
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