Turismo

De capital da droga à cidade das flores

Vinícius Dias
17/08/2007 01:06


Integração: teleférico Metrocable une a favela à cidade.
Há quinze anos, Medellín era dominada pelo narcotráfico e considerada a cidade mais violenta do mundo. Mas em 1993, quando a segunda maior cidade da Colômbia registrava 311 homicídios para cada 100 mil habitantes, o líder do cartel de Medellín (organização criminosa que comandava o tráfico de drogas), Pablo Escobar, foi morto. E as coisas começaram a mudar rapidamente. Hoje, apesar de muitos moradores ainda considerarem Escobar um herói e do narcotráfico estar longe de ser completamente controlado, a cidade reduziu em mais de dez vezes o número de homicídios para cada 100 mil habitantes – 29, em 2006. E já dá para pensar seriamente em se fazer turismo por lá.
Fundada em 1674, a industrial Medellín é a capital do estado (ou departamento, como dizem os colombianos) de Antioquia. Para quem chega até lá pelo aeroporto internacional de Medellín, na cidade vizinha de Rio Negro, a primeira visão da metrópole de 3,2 milhões de habitantes é espetacular. Medellín está encravada no Vale de Aburrá,


Praça Botero tem esculturas do artista de mesmo nome.
“Uma espécie de cratera no alto da cordilheira, a mais de 1,5 mil metros de altitude”, conta o repórter-fotográfico Albari Rosa.
Ao longo da rodovia que liga o aeroporto à cidade, tem-se uma vista panorâmica de toda a grande Medellín. A maioria das construções são baixas, por conta dos constantes temblores (terremotos), e feitas de tijolos de barro sem reboco, o que lhes dá uma coloração avermelhada. A maioria. A principal exceção à essa regra é o bairro El Poblado, o primeiro da cidade, onde vivem os paisas (naturais da região de que Antioquia faz parte) do estrato social 6, o mais rico, correspondente a nossa classe A. Na Colômbia, diferentemente daqui, onde se elenca do mais rico ao mais pobre (A a F), as classes sociais são ranqueadas do mais pobre ao mais rico (1 a 6). A metodologia muda, o abismo econômico não.
Mas se nem tudo são flores, muito é. Medellín tem clima ameno – temperatura média de 24ºC –, e por isso é conhecida como “a cidade da eterna primavera”. Tanto assim, que acaba de acontecer por lá (de 3 a 12 de agosto) a Feira das Flores, o evento mais importante da região. A temperatura dos termômetros é amena, mas a dos paisas é quente. Segundo Albari, eles adoram as festas que chamam genericamente de rumbas, onde dançam ritmos como salsa e merengue. Além disso, são extremamente educados. “Chegam até a nos deixar envergonhados”, conta o fotógrafo. Não é a toa que Medellín usa o slogan de “la más educada”.


Na chegada a Medellín, a vista da cidade encravada no vale.
O trânsito caótico é um problema, mesmo com a adoção de um rodízio de automóveis nos horários de rush, chamado Pico Placa. Mas se ao nível das ruas o transporte é confuso, tudo vai bem debaixo e acima delas: linhas de metrô e teleférico (Metrocable) integram a cidade. “O Metrocable une a favela de Santo Domingo, antigo reduto do Pablo Escobar, e a cidade, com toda a segurança”, fala Albari. Outras linhas do teleférico estão em construção.
Essa segurança não é garantida por acaso: há policiais e soldados fortemente armados por toda a parte. Mas nem por isso o clima fica pesado. A população convive bem com a presença das autoridades e confia nelas – dados do governo colombiano indicam que 75% da população confiam na polícia, contra 17% há 15 anos. Exemplos disso foram vistos por Albari em locais como a Plaza de Botero, praça central de Medellín, que abriga esculturas do artista colombiano Fernando Botero. “Lá, tão fácil quanto ver as obras, é observar soldados com fuzis tomando sorvete ao lado de civis e posando para fotos com a população, que os considera heróis”, conta.