Turismo

Férias de triatletas

Mario A. Madalozzo é consultor senior da Paxma Consulting e Foreign Trade.
08/06/2006 22:17
Após quase 4 anos sem férias, um mero descanso não bastariam. Precisava de uma aventura. Nos últimos anos, conquistei algo novo. Antes gordinho e sedentário, tornei-me, com muita disciplina e exercícios, um atleta amador de triatlo e maratona. Seriam minhas primeiras férias como triatleta. O companheiro para essa aventura seria meu grande amigo e colega de triatlo Jesse Geraldo Arriola Júnior, professor universitário e advogado.
De carro à Argentina e ao Chile, seriam cerca de 9 mil quilômetros em 20 dias, incluindo muitos desafios e alguns destinos mais tradicionais. Em Mendoza, avaliamos como enfrentar nossa primeira aventura: um trekking pelos acampamentos base do Aconcágua. Os pacotes das operadoras de ecoturismo eram de três dias, e incluiam clichês turísticos como “jantar com danças típicas”. Deus me livre!
Segundo as autoridades do Parque Nacional Aconcágua, o primeiro acampamento base ficava a “meros” dez quilômetros de caminhada da entrada do parque. Consentimos confiantes: dez quilômetros nós corremos quase todos os dias! (Depois vi o tamanho da bobagem que disse!).
Compramos as licenças necessárias e partimos para Puente del Inca, no coração dos Andes. Na chegada, visitamos o cemitério andino, dedicado aos que morreram em expedições àquelas montanhas. Uma experiência que nos recolocou os pés no chão.
Após uma noite de sono no quartel da 8.ª Companhia de Caçadores da Montanha, do Exército Argentino, saímos cedinho. Para oficializar nossa entrada no parque, liguei o cronômetro. Teríamos luz do dia até as 21h30. A nossa ambiciosa meta: fazer em um dia, o que a operadora sugeria ser feito em três.
Rios caudalosos, os blocos gigantescos de gelo deslizando lentamente e pedregulhos rolando montanha abaixo. Era uma paisagem viva e em eterna transformação, um ambiente inóspito, em que uma noite sem água ou abrigo poderia significar a morte.
Nossa caminhada logo virou uma marcha cheia de determinação. No caminho, conversamos com um senhor holandês que voltava do cume da montanha. Entre relatos de nevascas e gangrenas pelo frio, disse-nos: “não contratei ninguém para carregar meu equipamento, pelo orgulho, entende?”. Pelo orgulho. Algo emocionante de se ouvir. Apesar das paradas para fotos e conversas, em 1h45 chegamos ao acampamento de Confluência, contra três horas do tempo tido como usual.
Almoçamos churros com “dulce de leche” e seguimos rumo a um segundo acampamento base, Plaza Francia, distante mais 10 quilômetros. A trilha tornou-se ainda mais árdua. Cada passo era negociado com o relevo acidentado. O Aconcágua, cada vez maior em nossa visão, fazia do cansaço uma vaga lembrança. Logo eram 16h30 (o tempo limite que estipulamos para iniciar o retorno, a fim de estar em segurança antes do anoitecer). Foi difícil a decisão de retornar a poucos minutos de nossa meta.
A volta foi mais cansativa, talvez pela ausência da visão do Aconcágua ou pelos 25 quilômetros já percorridos. O declive machucava os joelhos. Andar montanha acima era mais fácil.
Assinamos nossa saída do parque às 22h10. Foram mais de 45 quilômetros entre as altitudes de 2.700 e 4.080 metros. Nada poderia trazer mais satisfação que o cansaço que sentíamos ao final daquele dia.
A fome era considerável, então nos fartamos com bifes de chorizo, batatas fritas e “mucho pan”. Cinco dias após ter deixado Curitiba, a viagem estava somente começando, e tudo corria conforme o planejado. Valeu a pena.