Turismo

O charme de Bath

Rodrigo Amaral, especial para a Gazeta do Povo.
03/08/2006 22:01
Imagine tirar um fim de semana para fazer um tratamento com águas medicinais, entrar em contato com as almas do além e ainda de quebra lançar um punhado de pragas mágicas contra o sujeito que roubou a sua carteira. Quase 2 mil anos atrás, esse era um programa que estava ao alcance dos cidadãos do Império Romano que tinham dinheiro suficiente para viajar ao spa de Aquae Sulis, hoje conhecida por Bath, no sudoeste da Inglaterra.
Muita água literalmente correu por baixo da cidade desde então; a cidade teve momentos de decadência, outros de prosperidade, e depois mais decadência. Recentemente, porém, recuperou o status de uma das mais procuradas atrações turísticas da Grã-Bretanha, e hoje proporciona um passeio de primeira categoria para quem está visitando o país e gostaria de se aventurar fora de Londres. Vale mesmo passar mais um dia desfrutando com calma as gentis atrações da cidade, que mesclam ruínas da Antiguidade com pérolas da arquitetura georgiana e o mais típico english way of life.
Bath abriga alguns dos impressionantes vestígios da presença dos romanos em território britânico. Seu complexo de águas termais, uma maravilha da engenharia da época, escapou razoavelmente incólume de séculos de abandono. Hoje, os Banhos Romanos (Roman Baths) atraem milhões de visitantes que querem admirar a engenhosidade empregada para controlar a força de uma fonte de água quente (a mais de 46 graus centígrados), que na época era vista muito mais como uma manifestação divina do que um fenômeno natural.
Atualmente, a visita aos Banhos Romanos representa o ponto alto de um passeio por Bath. Não mais para tentar melhorar de reumatismo com a ajuda da deusa celta Sulis (logo associada pelos romanos à sua Minerva) ou para lançar na fonte sagrada um tablete pedindo a morte fulminante de um desafeto, mas para conhecer as numerosas piscinas, banheiras e reservatórios que seguem sendo enchidos pelo sistema de transmissão de água elaborado quase 2 mil anos atrás. A visita é sobretudo subterrânea – a parte superior do complexo foi soterrada por vários séculos de depredações e hoje nada tem do original – e também inclui a exibição de interessantes estátuas e outros objetos da época que foram encontradas no sítio arqueológico local.
Após os dias áureos do Império Romano, Bath passou por tempos bem bicudos durante a Idade Média, com raros pontos altos como a coroação do saxão Edgar como primeiro rei da Inglaterra, em 973 d.C. O prédio atual da abadia é uma versão remodelada, iniciada no final do século 15, da igreja normanda que foi construída sobre o original saxão, onde Edgar recebeu sua coroa. O prédio atual é uma verdadeira pérola medieval, e certamente vale uma visita.
O charme de Bath é incrementado porque o sudoeste da Inglaterra tem esta qualidade tão difícil de encontrar, por exemplo, em Londres – o toque inglês. É um lugar onde as pessoas são simpáticas e atenciosas, bebem cerveja morna e preferem o rúgbi ao futebol. Não se deve deixar de experimentar um pint de bitter da Abbey Ales e, se possível, assistir a um jogo do Bath Rugby, que na última temporada acabou perigosamente perto da zona de rebaixamento na Primeira Divisão inglesa. Para juntar todas essas experiências, a opção mais simpática é provavelmente tentar achar um lugar nos minúsculos bares do Old Green Tree, um pub de mais de 300 anos localizado em Green Street.
Todo mundo de pé, apertadinhos e animados, falando de rúgbi e tomando cerveja quente – é difícil achar algo mais inglês do que isso.