O artesanato em barro é um dos destaque da Rota Luiz Gonzaga; em Bezerros, parada obrigatória no Centro de Artesanato de Pernambuco.
Imagine ir ao Nordeste e não ver o mar. Ou, durante a noite nordestina, puxar o cobertor para se proteger do frio, depois de saborear um fondue e um bom vinho. Estranho? Nem tanto. Desde que a BR-232 foi duplicada no trecho entre Recife e Caruaru, o agreste pernambucano passou a ser um destino certo para quem procura diversão, belos hotéis, pousadas, haras e um roteiro gastronômico de primeira. Tudo com muita cultura nordestina, da literatura de cordel aos museus de artesanato, passando por grupos de forró e duplas de repentistas.
Assim, os cerca de 200 quilômetros que ligam Recife (a capital) à cidade de Buíque – passando por Gravatá, Bezerros, Caruaru e Brejo da Madre de Deus – receberam o nome de Rota Luiz Gonzaga. Neste caminho em homenagem ao Rei do Baião, a visão sulista do Nordeste se dissipa a cada quilômetro: nada de caatinga, nada de seca, nada de crânios de bois sobre o chão partido. Na Rota Luiz Gonzaga, a temperatura durante a noite atinge “insuportáveis” 15°C, conferindo ao trajeto outro apelido: Rota do Frio. O suficiente para as classes mais abastadas do Recife, em passado recente, erguerem chalés no estilo suíço, com direito a lareira e tudo.
Em primeiro lugar, é preciso situar a rota. Estamos longe do sertão, onde Lampião fez breve carreira e onde o sol, de fato, arrebenta a terra. A Rota Luiz Gonzaga corta o agreste nordestino, área de transição entre a Zona da Mata (Mata Atlântica) e o semi-árido. É uma região alta, de clima ameno e muito verde, como extensas áreas de cultivo de cana e abacaxi, pecuária, museus e feiras de artesanato e cordel, pólos moveleiro e de confecções, rotas culturais, artes plásticas, turismo ecológico e muita comida, da buchada de bode aos restaurantes de inspiração francesa – sem esquecer dos vários sabores do Rei da Coxinha, às margens da rodovia.
No caminho entre Recife e Brejo da Madre de Deus, a primeira parada é Gravatá, cidade serrana que oferece haras, indústrias moveleiras, restaurantes finos, arquitetura secular e o “5.° melhor micro-clima do mundo”, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), que coloca a cidade como maior produtora de flores temperadas do Nordeste. Em Bezerros, uma parada obrigatória é no Centro de Artesanato de Pernambuco, que reúne obras de mais de 400 artistas do estado. Depois da passagem por Caruaru e sua histórica feira, o ideal é dar uma esticada até a Pousada da Paixão, em Brejo da Madre de Deus – onde todos os anos é encenado o espetáculo da Paixão de Cristo, naquele que é considerado o maior teatro ao ar livre do mundo. A pousada funciona durante todo o ano e nela o visitante se transporta para a Jerusalém da época de Cristo: as vias são estreitas, as piscinas imitam as termas romanas e centuriões observam de cima dos muros.
Quem chegar ao Recife disposto a encarar a rota não ficará com o queixo caído ao perguntar o preço do passeio. É possível participar de uma excursão, em ônibus, a R$ 65 por pessoa. A rota inclui a feira de Caruaru, almoço na Pousada da Paixão e passagens pelos pólos de móveis e confecções de Gravatá e Bezerros. Para quem quer conhecer tudo com mais calma, o mais recomendável é locar uma van, por um preço que varia de R$ 400 a R$ 480 por pessoa (para até quatro pessoas). O único problema: um dia pode ser pouco para conhecer tudo que o agreste oferece. Se o sertão não virou mar, como dizia a profecia, o agreste tem tudo para se tornar “praia”. E das mais freqüentadas.