Turismo

Onde a Irlanda é mais verde

Marcio Antonio Campos
08/07/2010 03:03
Saindo do Burren em direção ao litoral, a parada seguinte é um concorrente das Cataratas do Iguaçu na eleição das Sete Novas Maravilhas do Mundo: os Cliffs of Moher se estendem por oito quilômetros, têm cerca de 200 metros de altura e são a casa de um sem-número de pássaros que escolheram o local para seus ninhos. As trilhas permitem ao visitante chegar perto da beira do penhasco, mas com segurança. Se não houver tempo para percorrer toda a extensão dos Cliffs, vire à direita depois da trilha que vai do centro de visitantes ao penhasco; além de a vista ser mais bonita, ainda é possível visitar a Torre O’Brien, que completa 175 anos em 2010 – diz a lenda que Cor­­nelius O’Brien construiu a torre para impressionar as visitas (especialmente as femininas). Em dias sem nevoeiro, é possível observar a Baía de Galway, as Ilhas Aran, e até mesmo as montanhas do Parque Nacional de Connemara – o destino do segundo dia de passeios bate-volta pelo interior da Irlanda.
Em Connemara, um castelo perdido no jogo
Se no Burren o verde precisa se esgueirar-se entre as lajes de cal­­cário, na região de Conne­­ma­­ra, ao norte de Galway, ele tem campo livre para crescer – depois de séculos de devastação, o governo irlandês tem rea­­lizado um agressivo e eficaz pro­­grama de reflorestamento. E não apenas as árvores es­­tão retornando: a área é uma das re­­giões irlandesas conhecidas co­­mo “Gaeltacht”, onde o idioma irlandês é a língua do dia a dia para a maioria da população.
As atrações naturais da região incluem o Vale do Inagh, área que compreende os Twelve Bens (um conjunto de 12 montes) e cuja beleza levou os antigos celtas a considerar que ali estava a porta para o paraíso; e o fiorde Killary, considerado o único da Irlanda – embora ha­­ja outros lo­­cais no país com as características de um fiorde (uma grande entrada do mar cercada de altas montanhas rochosas), eles não têm esse nome. Aliás, água é o que não falta na região, com inúmeras cachoeiras e lagos, dos quais o maior é o Corrib.
A grande estrela de Conne­­mara, no entanto, é obra humana: a Abadia Kylemore, que funciona em um castelo neogóti­­co,construído na segunda me­­tade do século 19 pelo político e magnata inglês Mitchell Henry, para sua mulher, Margaret. No entanto, ela morreu apenas qua­­ tro anos após o término da construção. Em sua homenagem, Henry mandou erguer, perto do castelo, uma réplica da Catedral de Bristol, na Ingla­­terra, considerada a igreja favorita de Margaret. O ricaço, desiludido, passou a construção adiante. Assim, o castelo virou presente de casamento para a filha de um nobre, cujo marido era viciado em jogo e perdeu a propriedade no carteado.
Durante a Primeira Guerra Mundial, uma congregação de freiras irlandesas na Bélgica perdeu seu convento, bombardeado, e resolveu voltar para a Ir­­landa. Kylemore estava à venda, e elas conseguiram adquirir o local. Como o convento ainda funciona, apenas alguns cômodos estão abertos à visitação, mobiliados como na época dos Henrys. Os jardins de Kylemore, aos quais se chega com um micro-ônibus, também valem a visita.
Fome teve origem em repressão religiosa
Um evento fundamental na história da Irlanda é a Grande Fome que durou de 1845 a 1852. A explicação padrão se limita a informar que um fungo destruiu as plantações de batata em toda a ilha. No entanto, o mesmo fungo ocorria também na Europa continental e nem por isso houve um desastre como o irlandês. A fome só pôde causar tanta devastação porque, durante os séculos 16 e 17, a maioria católica do país se tornou dependente da batata para sua alimentação. O governo inglês, após sufocar uma revolta na ilha, impôs leis que proibiam aos católicos ir à escola, exercer sua religião em público e usar o idioma irlandês. A maior quantidade de terra que um católico podia ter era limitada a uns poucos metros quadrados, e a única cultura que podia fornecer alimento de forma constante nessas condições era a batata.
Muitas dessas leis já haviam sido revogadas na época da Grande Fome, mas a essa altura boa parte da população já não tinha como sair da condição de pobreza que a repressão havia causado. A fome reduziu a população em 20% a 25%: matou 1 milhão de irlandeses e forçou outro milhão a emigrar, especialmente para os Estados Unidos. No caminho para Connemara, após a cidadezinha de Spiddal, uma vila fantasma recorda os tempos difíceis: os muros de pedra, tão próximos uns dos outros, demarcam as antigas propriedades e revelam a severidade das restrições inglesas à posse de terra por parte dos irlandeses.
Serviço:
Várias empresas de ônibus, como a Healy (www.healytours.ie) e a Galway Tour Company (www.galwaytourcompany.com), oferecem excursões de um dia a Connemara e ao Burren/Cliffs of Moher a partir de 7,50 euros, saindo do terminal rodoviário de Galway. Os bilhetes podem ser comprados no próprio terminal ou no escritório turístico da Fáilte Ireland na Forster Street. O passeio guiado no Burren e a entrada nos Cliffs of Moher e Kylemore Abbey são cobrados à parte.