Representada por seis igrejas centenárias nos estilos barroco, neoclássico e eclético, a religião em São João del-Rei é desenhada pelas construções sacras e históricas, e faz parte do dia a dia dos seus moradores. Mas a graça da cidade não está só na relevância das igrejas imponentes ou dos museus. Ela também se esconde nas ruelas de paralelepípedo do centro antigo e na natureza que a contorna, de morros verdes e céu azul.
Próxima de Tiradentes, que fica a poucos instantes de carro e a cerca de quarenta minutos de trem (leia mais no texto ao lado), São João del-Rei conserva em seu patrimônio a história de Minas Gerais e do Brasil. As marcas do Ciclo do Ouro, que chega em 1704 com a fundação da cidade, quando ainda se chamava Arraial Novo do Rio das Mortes, estão folheadas nos púlpitos e altares.
Uma das construções mais importantes e em que o metal se faz mais presente é na matriz de São Francisco. Com estilo barroco, a igreja do fim do século 18 é a única da cidade que tem esculturas de Aleijadinho. Os detalhes, talhados na madeira escura dos púlpitos e no ouro sobre o branco das imagens do altar, são tantos que se pode perder horas só observando o exagero delicado do rococó.
Atrás da igreja encontra-se o cemitério em que foi enterrado Tancredo Neves (1910 – 1985), um dos nomes ilustres da cidade. O ex-presidente integrava a Ordem Terceira de São Francisco, grupo ligado à filosofia do santo católico e que ajudou na conservação do local, dois séculos depois.
A pintura sacra, nas paredes e no teto, é outro elemento típico das edificações, e que está não só na matriz de São Francisco, como também nas demais igrejas locais. Destas, as de Nossa Senhora do Pilar e Nossa Senhora do Carmo são as grandes indicações para os peregrinos espirituais e históricos, mas vale parar em outras igrejas também – principalmente a de Nossa Senhora das Mercês, que oferece do alto do morro uma visão panorâmica da cidade.
História viva
O legado cultural das igrejas sãojoanenses se mantém vivo por meio do ofício dos santeiros – escultores responsáveis por perpetuar a arte sacra – e no ar que exala das pedras das ruas e das paredes dos casarões bem preservados. Mas é nos museus que os costumes coloniais dos séculos 18 e 19 seguem conservados na memória. Alguns dos itens usados pela aristocracia local, como móveis e armas, além de exemplares da arte mineira estão bem guardados no Museu Regional de São João del-Rei.
Embora a fachada, que está em reforma, não seja das mais convidativas, o museu é ponto obrigatório para quem gosta de História. Mas São João possui outras paradas em que as recordações ainda respiram: o Memorial Tancredo Neves, o Teatro Municipal, as exposições no Solar da Baronesa e as recordações nas ruas coloniais.
Maria Fumaça– Natureza e doce de leite: bão demais!
Fora do circuito das igrejas e museus, São João del-Rei guarda para os turistas outros atrativos. Dentre os mais populares está a viagem de Maria Fumaça que vai até Tiradentes, uma das cidades coloniais da região. Os vagões antigos conservam o ar de outros tempos e o caminho revela aos ocupantes a paisagem pastoril de morros e vegetação rasteira do interior de Minas Gerais. Ao desembarcar na estação de Tiradentes, os visitantes são recebidos por uma cidade de beleza delicada, calçamento antigo e casarões altivos em meio às ladeiras. Os morros são como fortalezas, que cercam a cidade e preenchem o local com uma atmosfera secular.
Tiradentes está repleta de restaurantes típicos, lojas de artesanato e armazéns com os artigos mais procurados: o doce de leite, o queijo, a goiabada e a cachaça. Mas os preços de lá estão um pouco salgados. Uma opção para compras é a Feira do Pequeno Produtor de São João del-Rei, que ocorre longe do centro histórico, no bairro de Matosinhos, aos domingos. Ao lado de uma estação de trem desativada, a feira concentra a produção dos agricultores da região do Campo das Vertentes, formada por 36 municípios. Ali, mercadorias e artesanato têm preços mais acessíveis.
O centro de São João del-Rei reserva ainda uma surpresa singela para quem gosta das delícias simples do interior. É o Picolé do Amado, um ponto tradicional de mais de 70 anos em que são vendidos picolés artesanais feitos com polpa de fruta. Para os aventureiros da baixa – e boa – gastronomia, a dica é o picolé de coalhada.
Longe do agito da cidade, porém, os visitantes encontram na paisagem verde de São João e Tiradentes opções de ecoturismo; das mais radicais, como trekking, rapel e cicloturismo, até às mais tranquilas, como as cavalgadas e um passeio pelas cavernas.
No calendário cultural da cidade mineira, o mês de julho é marcado pelo festival promovido pela Universidade Federal de São João del-Rei. São duas semanas de música, teatro, dança e demais artes espalhadas pelas ruas. O evento anual já teve 24 edições.
O jornalista viajou a convite da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)
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