Turismo

Sem perder o fôlego

Maria Izabel Todeschini Marca é jornalista
15/06/2006 22:23
Sim, andei de elefante em Jaipur. Passei um dia todo admirando o Taj Mahal em Agra. Em Nova Delhi, visitei o memorial em homenagem a Gandhi e ainda deixei que enrolassem uma naja no meu pescoço! Como poderia voltar da Índia sem pegar na cobra, na tromba do elefante, sem ter visto uma das Sete Maravilhas do Mundo ou conhecido os templos eróticos de Khajuharo? Nem pensar !
E fora de qualquer roteiro, ainda tive a sorte de participar de um típico casamento indiano e ter aulas de yoga com diferentes mestres em diferentes cidades.
Fiquei maravilhada com muita coisa que vi, mas fiquei chocada ao presenciar cenas dramáticas de auto-punição no lago de um templo Sikh e a cremação de corpos no rio Ganges, na tétrica cidade de Varanasi. Ainda guardo vestígios do abalo sísmico que isso provocou dentro de mim.
Mas o ponto alto da viagem foi Rishikesh, ao norte da Índia, terra santificada pelos pés de “rishis” (sábios, autores dos Vedas), na nascente do rio Ganges. Uma cidade paupérrima, com ruas de chão batido e casebres intercalados com templos improvisados. Naquela verdadeira favela a céu aberto, era comum ver crianças subnutridas e mulheres vestidas com saris multicoloridos entre vacas, poeira e valetas. Um inacreditável mosaico humano circulava por ali: “sadhus”,”swamis”,”sannyasis” – ascetas, iluminados, renunciantes.
Decidi passar uns dias no Ashram Dayananda Saraswati, uma espécie de monastério, para descobrir a verdadeira alma da Índia.
Os alojamentos eram simples. Havia uma biblioteca repleta de livros – em sânscrito e inglês – sala de estudos, salão de refeições e um templo às margens do Ganges.
A meta dos que chegavam era a elevação espiritual. Lá descobri que os gurus eram Cristos-Iogues, que seguiam os passos de Jesus rumo à iluminação e ao abandono absoluto no Ser Supremo. Ensinavam que o segredo da vida era executar tarefas simples, com todo o empenho e a entrega de si – como ajudar na cozinha e atender os carentes – e, na outra metade do dia, dedicar-se à meditação, à devoção, à integração com o Todo Absoluto.
Os rituais no Ashram começavam às cinco da manhã, com orações e a purificação no sagrado rio Ganges. O chá com leite era servido às sete horas. O almoço – arroz integral, “dal” (sopa) de lentilhas e batatas – era servido ao meio dia, em bandeijões. Não existia café e toda a região era vegetariana – ou seja, para mim, o sacrifício estava completo.
Passava o dia descalça, lavava minha roupa e louça, era responsável pelos meus (poucos) pertences, acompanhava a distribuição de comida e remédios à comunidade, consultava os livros e me entregava à oração, à meditação e aos mantras no templo.
Os moradores do Dayananda podiam permanecer lá o tempo que quisessem, colaborar financeiramente com o que pudessem e fazer a rotina e as tarefas que desejassem.
O silêncio era quase absoluto. A verdade, para os santos “swamis”, não podia ser ensinada ou expressa em palavras. Era uma descoberta pessoal, uma dádiva suprema só revelada quando o “ser” estivesse preparado, num estado de total entrega e despojamento – estado chamado de “não ser”.
Em Rishikesh, assimilei que estamos aqui para encontrar o equilíbrio, a unidade com Deus. Sem ego, sem desejos, sem questionamentos. A recompensa era a sensação de felicidade plena, de amor incondicional, de completude interior.
Se quero voltar para a Índia? Sim… mas eu não deixei a Índia! Ela agora faz parte de mim, onde quer que eu esteja.