Turismo

Uma viagem em busca de vulcões

Jean Sigel é Relações Públicas e Consultor Turístico.
02/11/2006 22:23
Em um momento de divagação com minha esposa, enquanto olhávamos o mapa-mundi imaginando onde poderíamos realizar nossa próxima aventura, perguntei: “Que tal irmos para o Equador”? Acostumada com as idéias malucas de um marido com espírito mochileiro e que trabalha com turismo, ela nem ao menos hesitou: “Ué, vamos sim”.
Coletamos informações sobre o país, pegamos nossas mochilas velhas de guerra, equipamentos para trekking e acampamento, dólares contados para 25 dias de aventura e partimos para terras equatorianas. Estávamos atrás dos vulcões. O país tem aproximadamente 30 vulcões somente em seu pequeno cinturão andino na porção continental, sendo que vários deles estão em plena atividade. É a chamada Avenida dos Vulcões.
Nossa primeira parada foi em Quito. Na capital equatoriana, visitamos o Monumento da Mitad del Mundo, onde ninguém resiste em colocar um pé no Hemisfério Norte e outro no Hemisfério Sul, já que ali se encontra a linha imaginária do Equador. Também fomos na grande feira de Otavalo, a apenas uma hora da capital. Depois de quatro dias fantásticos em Quito, seguimos em direção aos vulcões.
A Avenida dos Vulcões do Equador, nome dado pelo explorador alemão Alexander Von Humboldt, vai de Quito até a histórica e bela Cuenca. Pelo caminho, oito vulcões dão o ar de suas graças. Partimos bem cedo para a ferrovia para pegarmos o concorrido AutoFerro, trem que liga Quito ao Parque Nacional de Cotopaxi. Com muita sorte, conseguimos dois bilhetes para a Avenida dos Vulcões. É comum os viajantes mais destemidos embarcarem sobre o teto do trem e corremos para garantir nosso lugar lá em cima. Foi uma experiência inesquecível observar os campos, vilas, bosques, vales e o povo andino, que acena com alegria enquanto o velho trem corta sua paisagem.
O primeiro vulcão avistado foi o Pichincha, com 4.784 metros. Mas impressionante mesmo foi a primeira imagem do Vulcão Cotopaxi, vista de cima do antigo trem. Ao chegarmos no Parque Nacional Cotopaxi, procuramos um senhor que realiza descidas de bicicleta desde o alto do vulcão que dá nome ao lugar, com 5.897 metros. Não deu outra. Duas horas depois de nossa chegada, estávamos quase no topo do Vulcão Cotopaxi, o mais alto vulcão ativo do mundo, e descemos alucinados a estrada de cascalho que leva à base em nossas mountain bikes.
Entre um vulcão e outro, fomos conhecer uma das mais famosas haciendas do Equador, fazendas dos tempos da aristocracia rica da região. Conhecemos a Sra. Mignon Plaza, neta e filha de ex-presidentes do Equador, proprietária da Hacienda San Augustin de Callo, praticamente dentro do Parque Nacional do Cotopaxi. Ela nos convidou para uma noite no local, que conserva ruínas incas praticamente intactas.
Após o descanso na hacienda, saímos para Riobamba, de onde continua a viagem pela Avenida dos Vulcões. Embarcamos no teto do ferrobus, um veículo bizarro: um ônibus a diesel que troca marchas e anda sobre trilhos. Esse trecho de ferrovia, que segue de Riobamba a Alausi, já foi considerado o mais difícil do mundo, em termos de construção, por conta da geografia acidentada. Depois de uma enchente que destruiu grande parte da linha férrea do país, a falta de investimento desativou grande parte da malha, mas o pequeno ferrobus continua desafiando desníveis inacreditáveis.
A vista de cima do teto do ferrobus é maravilhosa. O trem vai até Nariz Del Diablo, um trecho onde ele faz o retorno e volta para estação. Ainda tivemos tempo de visitar o que restou do vulcão Quilotoa, uma antiga cratera que hoje está repleta de água azulada. Uma vista única.
Última parada: Cuenca, cidade colonial onde se produz o famoso chapéu panamá e onde passamos o ano novo junto a amigos mochileiros de vários cantos do mundo. Os vulcões ficaram para trás, deixando em nossa memória a imagem de um pequeno país com grandes atrativos para aqueles que estão à procura de belas paisagens. Um país com um povo hospitaleiro e simpático, que aprendeu a respeitar os humores de sua terra abençoada e condenada pelos imprevisíveis vulcões.