Paris, cinco noites; Europa, cinco países em 22 noites; Buenos Aires, três noites. Os pacotes de viagem propõem verdadeiras maratonas turísticas para conhecer metrópoles inteiras em 72, 120 ou 168 horas.
O jeito é correr, e muito. Dormir às 3 horas, acordar às 6h30, tomar café em 20 minutos, fazer city tour, ficar apenas 20 minutos em cada monumento e, no máximo, uma hora nos museus. Sem tempo nem para processar as informações do guia, a viagem, que deveria ser relaxante e prazerosa, torna-se cansativa.
Na contramão desse ritmo alucinante, surge o slow travel, um segmento que defende o fim do corre-corre e prega a degustação integral da viagem. “É um tipo de turismo realizado sem pressa, com a tranquilidade necessária para os visitantes poderem se desestressar e viver de forma diferente de como o fazem normalmente”, explica o turismológo José Gândara.
É essencial reservar um período de tempo maior para o slow travel. Os militantes estimulam o uso do transporte coletivo e o consumo de produtos típicos locais. Alugar um apartamento, ler o jornal da cidade e perder-se no destino também são ações da modalidade de viagem, em uma maneira de testar uma outra forma de viajar, privilegiando as sensações vividas no lugar. “Todo tipo de turismo pode permitir experiências únicas, desde que o viajante tenha condições de compreender aquilo que está experimentando”, afirma.
Férias para ver e sentir
Na próxima viagem, que tal trocar a paradinha estratégica na barraquinha de artesanato pela oportunidade de sentar com os artesãos e produzir os próprios suvenires? Esta é a proposta do turismo de experiência: promover a máxima interação entre o visitante e o destino.
De acordo com o professor José Manoel Gonçalves Gândara, coordenador do curso de Turismo da Universidade Federal do Paraná, nesse segmento, a viagem vai além da observação de novas paisagens. “Os viajantes procuram conhecer, compreender e desfrutar sensações únicas que se convertam em histórias marcantes”, diz.
Entre as atividades relacionadas com o turismo de experiência estão: viagens de trabalho voluntário, práticas de esportes radicais, hospedagens na casa de moradores, aprendizado e consumo da cultura, costumes e culinária local, entre outros. “O turista de hoje não quer ser um mero espectador. Ele busca uma participação mais ativa durante suas viagens”, afirma a turismológa e pesquisadora Graziela Scalise Horodyski.
Em qualquer lugar
Experiências únicas podem ser vividas em qualquer destino. Mas o segmento inspira a criação de produtos específicos, como passar um mês numa plantação de produtos orgânicos na Toscana, voar de balão na Turquia ou atuar em ONGs na África. Um exemplo é o The Real Mary Kings Close, em Edimburgo, na Escócia. Parte do centro histórico da cidade, que permaneceu completamente fechado por 400 anos, foi reaberta para visitação. “Depois de passar por um centro de interpretação para conhecer a história, a visita é feita em grupos de oito pessoas, acompanhados de um guia que faz com que os visitantes compreendam, por meio de sons, luzes e odores, como era a vida naquela parte da cidade durante a Idade Média”, conta Gândara.
No Brasil, o Ministério do Turismo e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) estimulam algumas iniciativas, como a degustação de vinhos de produção regional no Rio Grande do Sul, os passeios históricos em Petrópolis e aventuras amazônicas em Belém.
Em Curitiba também existem iniciativas voltadas para o turismo de experiência. A agência Aster, por exemplo, lançou no início de 2012 o roteiro Curitiba: Você está aqui. Ele foi criado através de uma pesquisa feita com moradores sobre os lugares mais representativos da cidade.
De acordo com Mariana Halfen, sócia da Aster, o roteiro foca os pontos turísticos e seus personagens. “Buscamos trabalhar todos os sentidos. Na sorveteria do Gaúcho, por exemplo, oferecemos um sorvete. Tudo para que a experiência seja marcante”, diz.
Rotina ignora conceito clássico de roteiro
Não foram simples viagens de férias. O contato com a cultura, a comidae as pessoas, permitiu que três jovens tivessem uma experiência muito mais enriquecedora do que um roteiro convencional poderia proporcionar. Embora em alguns casos o turismo não tenha sido o foco principal, a viagem proporcionou tudo aquilo que o segmento de experiência propõe.
Durante as férias, em abril deste ano, a jornalista paulistana Karina Gomes, 23 anos, se juntou a um grupo de missionários e foi para o Senegal e Cabo Verde, na África. Embora estivesse trabalhando, ela teve a oportunidade de conhecer os dois países de maneira muito mais profunda. “Se fosse uma simples turista, provavelmente ficaria nos maravilhosos hotéis da orla, em Dakar, conheceria alguns pontos e só”, conta.
Em três semanas no lugar, ela aprendeu a falar wolof (idioma local), comeu tieboudienne (comida típica, feita com arroz, comido com a mão), sentada no chão da casa de um senegalês. “Foram experiências incríveis. Aprendi mais sobre a cultura e procurei viver como eles vivem”, lembra.
Com a universitária Jacqueline Chomatas, 22 anos, não foi diferente. Em 2010, ela passou quatro meses em Benin, no Oeste da África, onde dava aulas sobre doenças sexualmente transmissíveis e saneamento básico. Seu dia começava com um banho de balde (na casa onde ela morava, apesar de nova, não tinha água encanada), para em seguida negociar com o mototáxi a corrida até o trabalho.
Para Jacqueline, a experiência no Benin tornou-a um ser humano melhor em todos os aspectos. “A principal diferença foi ter a oportunidade de conviver diariamente com a beleza e a dificuldade de uma família típica do Benin. Se eu tivesse passado apenas alguns dias no Benin, talvez não tivesse a oportunidade de ter feito amigos para toda minha vida”, conta.
A administradora Liliana Niederheitmann procurava uma experiência intensa, de aprendizado contínuo, descobertas, dificuldades e crescimento. E encontrou. Ela está na Índia, finalizando um projeto de captação de recursos para nutrição de crianças, através de uma pequena ONG na cidade de Bangalore.
Durante quase seis semanas de viagem, Liliana pôde conhecer o Sri Lanka e alguns destinos turísticos. “Consegui viajar em vários finais de semana. Após o fim do projeto, vou conhecer algumas cidades do norte da Índia, como Délhi, Jaipur e Agra”, conta.
Na opinião dela, a experiência, tanto no trabalho como na Índia, deu a oportunidade de refletir mais sobre o Brasil. “O contato com outras realidades sociais, etárias e religiosas amplia a visão de mundo e de quanto ele é rico. É uma oportunidade de autoconhecimento”.
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