Se você tem mais de 30 anos é provável que tenha acordado cedo em 29 de julho de 1981 para assistir ao casamento de Charles Windson e Diana Spencer e sonhar com a possibilidade de encontrar o seu príncipe montado em um cavalo branco ou sua princesa de coroa e olhar angelical. Isso em plena Guerra Fria, quando o mundo dava pistas de estar virado e de não haver mais, além dos livros, espaço para a realeza. A verdade é que nem a descida do homem na Lua teve uma audiência tão grande quanto o casamento da professora com o príncipe britânico, que nem teve de passar pela etapa da maçã envenenada. Os dados da época revelam que eram 3,5 mil convidados na Catedral de Saint Paul, em Londres, e 750 milhões de telespectadores ligados ao redor do mundo, numa época em que não se falava em globalização.
A princesinha do mundo moderno não teve outra escolha senão virar fenômeno de mídia. A moça de olhar baixo, que enrubecia a cada aceno, aprendeu a lidar com tamanha projeção. Na marra. Não tinha uma madrasta má, mas uma “sogra-rainha” que nunca gostou muito do seu trânsito entre os súditos e um marido que não esquecia da ex – e agora atualíssima – duquesa da Cornuália, Camilla Parker Bowles. Então, vestia-se bem, conquistava hordas de fãs com o gestual delicado e dedicava energia a causas sociais. E quanto mais dava sinais da sua inadequação ao estilo rígido da monarquia inglesa, mais ganhava compreensão pública. “Ela é a heroína que dá a vida pela história. É a princesa dos contos infantis, escolhida para ser a rainha, que arca com o ônus dos ritos e das regras que permeiam a realeza. O preço para viver esse papel é anular a sua personalidade”, diz o psicoterapeuta Dionisio Banaszewski. “Há uma grande diferença entre sonho e realidade. Literalizar o conto de fadas pode ser perigoso”, afirma.
Mesmo dez anos depois da sua morte – em 31 de agosto de 1997, num acidente em que morreram ela, o namorado Dodi Al-Fayed e o motorista Henri Paul –, o “assunto” Diana continua em alta. Segundo Dionisio, porque Lady Di reforça o mito das princesas das histórias infantis: “A mulher fica tentando mostrar que é igual ao homem, mas a essência e a alma são femininas e se encantam com as princesas de contos de fadas. As meninas continuam sonhando com isso, ainda que inconscientemente. Elas querem um amor, querem seus filhos, poder cuidar deles”. Quem contexta a versão é o doutor em lingüística Nilson Lage, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, que prefere encarar a princesa como representante de uma cultura de vitimização, em que as mulheres se supõem alvos de pressões econômicas, da brutalidade masculina, da insensibilidade do mundo. “Apegar-se a isso é uma forma de não perceber onde é que os direitos estão sendo tolhidos na verdade.” Mas, para ele, Diana é sim um mito também no Brasil, basta avaliar um indicativo simples de popularidade: a quantidade de Daianas nas listas de nomes, escritas assim mesmo com “a” e “i”, marcas de um tempo em que as pessoas ainda não estavam familiarizadas com termos como site, que diz-se “saite”. “Há semelhança entre figuras como Diana e a Barbie, por exemplo, ambas loiras, longilíneas, que passam a idéia de sublimação. Trabalha-se assim com a redundância de valores. Para quem está do lado de cá do mito, fica o papel didático, que transmite a tradição real. As pessoas interpretam e reiteram as histórias e os valores sobrevivem”, diz ele.
larissa@gazetadopovo.com.br
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