Comportamento

Amanhã tem gafieira

Daniela Neves - danielan@gazetadopovo.com.br
10/05/2009 03:10
A gafieira é o programa reservado para as segundas-feiras em um bar no bairro Água Verde. E se a imagem que lhe veio à mente foi de um grupo de aposentados, tranquilos na vida, esqueça. Até há alguns senhores dançarinos por lá. Mas no geral, essa gafieira da segunda é frequentada por gente que pega pesado já pela manhã, mas que não deixa escapar uma boa volta no salão.
Thiago Augusto Koroll, de 21 anos, é um deles. Analista de sistemas de profissão, dançarino de salão por gosto. Começou a ter aulas de dança de salão no início do ano e há dois meses frequenta a gafieira. Quando chama os amigos para o baile, alguns não curtem a ideia, mas ele vai mesmo assim. “Aqui, mesmo quando venho sozinho encontro par para dançar. Associar a gafieira com uma idade mais avançada é preconceito. Tem muita gente nova que dança para relaxar, para descontrair e esquecer as tensões do dia a dia”, diz Koroll.
No restante da semana, o salão do bar fica repleto de mesas. Segunda, algumas delas são dispostas nos cantos e o piso de madeira fica livre para as passadas e o som do grupo Samba na Surdina. Instrutores contratados pelo bar, caracterizados com roupas de “cariocas do samba” – calça branca e chapel Panamá – animam os mais tímidos, tirando-os para dançar. O que chamou a atenção da economista Meire Mazolla, 47 anos, foi justamente a presença dos instrutores. Quando ela soube que teria par garantido na dança, aceitou o convite para ir à gafieira. “Não sabia dançar direito. Comecei a aprender com os instrutores e agora, na quarta vez que vim, já estou me soltando mais”, conta. Ela diz que sempre gostou de dançar, mas fica desanimada ao pensar em boates com pessoas paradas, no canto do bar, ao som do que chama de “tunch-tunch”. “O brasileiro tem ginga e o samba resgata essa vontade de se mexer que nós temos”, diz.
“Malandros”
De olho no salão, é fácil identificar quem está na fase dos primeiros passos, mais lentos e comportados, quem já dançou algumas vezes e ousa fazer alguns movimentos mais complicados, e os quase profissionais, que fazem piruetas pelo salão, dando show para quem observa. “Não é um dos ritmos mais fáceis, é o som do malandro carioca, do requebrado”, diz o instrutor Leandro Laranjeira, que dá dicas para os pés ainda destreinados. Se a dança for praticada somente uma vez por semana, afirma Leandro, vai demorar um tempo, uns dois meses, para que se chegue ao ponto. Mas muitos dos que frequentam a gafieira acabam procurando uma escola de dança, ou o caminho contrário: da escola chegam à gafieira. E assim nosso número de malandros e malandras cariocas-curitibanos vem aumentando.
Antônio Oliveira, aposentado de 79 anos, não tem o jeito de malandro. Não gosta muito de conversa e fica sozinho no canto nos intervalos do baile. Mas quando chama a dama para dançar, mostra a que veio. Começou a aprender dança de salão há 5 anos no SESC (Serviço Social do Comércio) e não perde a oportunidade de desenvolver os passos na gafieira. “É bom dançar, é animado”, comenta o aposentado, que logo segue para o meio do salão mostrando que dançar é para todos, não tem idade e nem condições físicas. Basta a animação.
Serviço
Gafieira na segunda-feira: Bar Matriz e Filial, Av. Iguaçu, 2.300, Água Verde, fone (41) 3343-3063. Com grupo Samba na Surdina. Entrada a R$ 15 para homens e R$ 12 para mulheres.
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É baile e não estilo de dança
O autor do livro Samba de Gafieira No Rio de Janeiro, Marco Antônio Perna, dá dicas de boas maneiras
no salão
> Mantenha-se sempre no sentido do baile, que é anti-horário
> O espaço que você ocupou atrás não lhe pertence mais e sim ao casal que vem em seguida
> Não entre na pista “atropelando” quem já está lá
> Se não estiver gostando de quem está dançando com você, não largue no meio da música. Espere acabar e se despeça
> Não faça passos acrobáticos no salão cheio
> Dica para as mulheres: se gostar de fazer acrobacias, cuidado com a saia
Origem
A gafieira não é um estilo musical, ou de dança, e sim um baile popular. O som mais comum é o samba dançado a dois. Esses bailes ficaram conhecidos no Rio de Janeiro da década de 40, realizados em bairros como Botafogo, Catete e centro do Rio de Janeiro.
Dos passos tradicionais, aos poucos o samba de gafieira ganhou elementos do tango argentino e algumas acrobacias, como lançar a dama para cima.