Comportamento

Bem mais frio do que o inverno

Celina Alonso, especial para o Viver Bem
22/07/2007 23:24
Há explicação científica para tantas alterações na vida da gente quando chega o inverno? Será que a solução é mesmo comer tanto chocolate, atacar as massas, doces e tomar bebidas alcoólicas para aquecer o corpo? Na contramão dos que se ressentem com o inverno, existem pessoas que adoram céu nublado, o frio de doer o corpo, e nem ligam para o clima invasor. Tem gente que sabe driblar todos os sentimentos e as dores que chegam com o frio. As crianças, por exemplo.
Nos textos a seguir, sugestões de sopas, bebida sem álcool, música, filmes e livros e até um hidratante para prevenir e espantar o baixo-astral dos dias cavernosos. Já que não dá para levar a lareira para a cama…
Calma! Existe uma explicação científica
No Brasil, a depressão afeta 12% da população. Trata-se de uma doença que não tem hora nem época para atacar. Nos países nórdicos, 17% da população é deprimida, sendo que os pacientes da chamada depressão sazonal representam mais de 1% deste total. A depressão que vem com o frio, segundo o neurologista e psicoterapeuta Mario Marcio Negrão acontece pela ausência da luz do sol. “Durante o dia a glândula pineal registra a luz solar, que é fundamental para regular e equilibrar o metabolismo.”
A diminuição da luz do dia durante o inverno confunde o relógio biológico e desencadeia uma síndrome que começa pela ansiedade e pode terminar em pensamentos mórbidos. Os sintomas aparecem no humor, no apetite, no sono, na força muscular, na concentração, na memória e na capacidade de tomar decisões.
A exposição do corpo à luz natural aumenta a produção de serotonina, hormônio associado ao bem-estar. Já a melatonina, hormônio que induz ao sono, é liberada exatamente quando a luminosidade do dia diminui. Resumindo: no inverno, o corpo percebe a diminuição da luz, fica quase pronto para dormir, ainda que o relógio aponte que seja dia. É por isso que nos países nórdicos – onde o inverno é longo e rigoroso – crescem os casos de depressão nessa época.
Negrão aponta algumas situações reais em que o inverno causa transtornos sociais, a chamada “febre de cabana”. Ela acomete pessoas que passam muito tempo em chalés nas florestas geladas do Canadá. Por causa do acúmulo de neve nas estradas, elas ficam isoladas. Outro exemplo ocorre entre pesquisadores da Antártida, que passam a ter extrema irritabilidade e até surtos psicóticos devido ao confinamento. “A falta de luz e o isolamento no inverno podem causar declenchment (síndrome depressiva)”.
Azedo de frio
Mario Negrão, carioca da gema, discorda de quem acha que o inverno reflete diretamente no humor do curitibano. “Não vejo dessa forma, pelo contrário. Tenho amigos curitibanos muito bem-humorados. Mas se em algum deles aparece eventualmente o tal ‘azedume’, certamente será por causa do frio e da umidade da cidade”, brinca o psicoterapeuta. Segundo ele, há um mercado de fototerapia nos países nórdicos. “Criaram pequenos aparelhos que projetam luzes que combatem os sintomas gerados pela escuridão do inverno.” Mas nem é preciso ir tão longe. Existem vários terapeutas alternativos e homeopatas em Curitiba que recomendam sessões freqüentes de cromoterapia feita em casa.
Comer para aquecer?
É normal sentir mais fome durante o inverno. Quando o termômetro cai, o corpo tem de produzir mais calor para manter a temperatura corporal. Mas será que não exageramos um pouco? Usamos o frio para justificar a carência por guloseimas, quilos de chocolates, queijos gordurosos, vinhos em excesso. “Na verdade, não precisa tanto”, afirma o endocrinologista Mauro Scharf, do Hospital Nossa Senhora das Graças. Afinal, o homem moderno tem roupas quentes e mora em casas aquecidas.
Segundo o médico, a alimentação está diretamente ligada ao humor: “Carboidratos, massas e açúcares estão relacionados à produção e à síntese da serotonina. O carboidrato contribui com a entrada do triptofano no cérebro. Este se transforma em serotonina, que, com as endorfinas, são responsáveis pelo bem-estar e bom humor”.
Scharf lembra que ingerir muito carboidrato, no entanto, pode acabar criando um efeito contrário, como o ganho de peso, irritabilidade e indigestão. Existem alimentos ricos em ácidos fólicos – vegetais de folhas verdes, grãos, levedura de cerveja e carnes – que também são importantes para a liberação da serotonina e, mesmo ingeridos em grande quantidade, não prejudicam a saúde.
“É comum usarmos o inverno como desculpa para comer e beber demais. Mas não precisamos comer alimentos com muita gordura saturada como chocolate, que pode se tornar um inimigo do coração. E a digestão mais lenta acaba piorando também o humor”, adverte o médico.
Há ainda um outro mito de inverno: que é preciso consumir bebidas alcoólicas para espantar o frio. “O álcool é um vasodilatador periférico. A primeira impressão é a de que aquece, mas é uma fonte vazia de calorias e a intoxicação pelo álcool faz com que o corpo perca muita água e sais minerais, podendo até se desidratar.” A boa notícia: “Nos dias frios pode-se abusar das sopas de legumes, vegetais, cremes de grãos, carnes magras, ingredientes que nutrem e realmente aquecem o corpo. Esses alimentos aumentam a disposição e o bem-estar”, orienta o endocrinologista.