Comportamento

Com a cabeça nas cifra$

Jennifer Koppe - jenniferk@gazetadopovo.com.br
11/01/2009 02:09
De que forma a história pessoal influencia a nossa relação com o dinheiro?
Desde a infância, ouvimos mensagens explícitas e implícitas sobre o dinheiro e, inclusive, alguns “prognósticos” sobre o futuro, do tipo: “Esse menino vai ser milionário um dia!” ou ainda “Essa menina não leva jeito para lidar com dinheiro!”. Grande parte das vezes, essas mensagens acabam por influenciar, de forma positiva ou negativa, a autoconfiança e os projetos financeiros de cada um. O que é interessante é que o adulto nem sempre tem consciência dessas mensagens ou do peso que elas ainda podem ter em sua vida.
É possível mudar o nosso comportamento diante do dinheiro? De que forma?
Considerando apenas o nível individual do problema, eu diria que o primeiro passo é conhecer o seu jeito particular de lidar com o dinheiro e assumir com franqueza os seus projetos. Sem isso, não há mudança possível. Há pessoas, por exemplo, que se queixam de falta de dinheiro, mas evitam examinar com profundidade os seus gastos mensais com a alimentação fora de casa, por exemplo. Assim, a pessoa reclama da falta de dinheiro, mas não assume sua opção pelo prazer imediato e por não poupar – o que ocorreria se a pessoa levasse para o trabalho a comida feita em casa.
Qual a relação que podemos estabelecer entre afeto e dinheiro?
O dinheiro pode assumir um significado afetivo, em determinados casos. Um exemplo: no passado, em certas regiões do país, havia o costume de as crianças falarem aos adultos no primeiro dia do ano a frase “bom princípio!”. Em troca, recebiam uma moedinha. A criança podia gostar mais do gesto afetivo do adulto do que propriamente do valor objetivo da moeda. Outro exemplo: um adulto inseguro sobre suas qualidades pessoais pode acreditar que só conseguirá o amor de uma mulher se tiver dinheiro, o que é uma bobagem. Mais um exemplo: casais com grandes dificuldades de comunicação e de contato com seus sentimentos mais profundos, por vezes, ao se divorciarem, promovem grandes brigas em torno dos bens materiais, que podem ter um significado emocional importante. Esse é um fenômeno que os advogados conhecem bem.
Qual o perigo de se deixar levar por pensamentos mágicos (de que vamos ganhar na loteria, por exemplo) e como evitar esses pensamentos?
O apelo por “saídas” mágicas é grande, a começar pelas loterias legais, que arrecadam um bom dinheiro da população, além de jogos ilegais, como caça-niqueis, cassinos e o jogo do bicho. A busca por soluções mágicas também se estende por outros domínios, como simpatias, esperanças em mensagens de horóscopos… Enquanto a pessoa espera passivamente pela mudança nada de concreto acontece. No caso do dinheiro apostado, o problema é ainda maior, porque as chances de ganhar são ínfimas e o dinheiro não volta mais.
Você comenta no livro que muitas pessoas têm o costume de colocar a culpa pelos fracassos nos outros ou em fatores externos. Por que agimos assim?
Esse é um dos mecanismos usados por nós para evitar o desconforto de encarar as próprias dificuldades. Caso aconteça com muita frequência, a pessoa se vê sem condições para enfrentar os problemas. Mas se “a culpa é do outro”, como a pessoa erradamente supõe, não dá para fazer nada.
Como superar a culpa que temos em relação ao ganho de dinheiro? Qual a relação entre culpa e irresponsabilidade financeira?
A culpa pode ter diferentes origens. Uma delas é a destrutividade. Na primeira metade do século 20, Albert Einstein e Sigmund Freud debateram a questão da origem das guerras. Para Freud, o homem tem uma destrutividade inconsciente que pode se voltar tanto para os outros como para si próprio. Isso explicaria o fato de algumas pessoas destruírem suas vidas financeiras depois de ganhar dinheiro ou usufruir dele. Como o mecanismo, na maior parte das vezes, é inconsciente, elas têm poucas condições de mudar sozinhas. Se o problema com a culpa é grande – embotando potencialidades de crescimento ou destruindo as finanças – um psicólogo pode ajudar.
Qual o perfil psicológico de quem é bem sucedido financeiramente? É possível descrevê-lo?
Podemos discutir justamente o que é ser “bem-sucedido financeiramente”. Um frade franciscano, que fez voto de pobreza em prol das obras espirituais da Igreja, pode ser considerado “bem-sucedido”, porque age de acordo com suas escolhas. De forma semelhante, alguém que tenha escolhido ter uma vida tranquila, sem grandes ambições sobre uma possível mudança de classe social, também pode ser considerado “bem-sucedido”. O problema é a ideia vigente de que todos nós teríamos que “ganhar muito dinheiro, a qualquer custo”. Se a pessoa não se questiona, passa a ser escrava de um projeto que não é o seu.
Qual a importância da criatividade para investir e ganhar dinheiro?
De acordo com Donald W. Winnicott, um importante autor da Psicanálise inglesa, a criatividade está intimamente ligada ao modo de ser de cada um de nós. Além da criatividade dos gênios da arte, há o modo criativo como decidimos decorar o nosso quarto, vestir nossa roupa pela manhã… Assim, se pensarmos na criatividade ligada ao dinheiro, é importante, antes de tudo, questionar qual é o nosso modo de ser, o que desejamos, o que sabemos fazer bem. A princípio, há chances menores de sucesso para alguém que seja extremamente tímido e que queira abrir um pequeno comércio e atender ao público. Talvez, essa mesma pessoa encontre prazer e mais sucesso ao estudar Ciências Contábeis e, criativamente, abrir um escritório.
As pessoas costumam reagir de formas diferentes a experiências adversas. Por exemplo: quem já foi pobre e que agora tem dinheiro, normalmente esbanja demais ou então economiza tudo o que tem e continua se privando. O que determina estas reações tão opostas quando o problema enfrentado é o mesmo?
É o mesmo caso de uma família que tem dois filhos, que tomaram caminhos muito diferentes em suas vidas afetivas, profissionais e espirituais. De forma bem resumida, podemos verificar que cada filho nasceu em um momento diferente na história daquela família e sofreu a influência de diferentes desejos dos seus membros. Cada pessoa processa as influências que sofreu de forma diferente. Isso é o que faz com que cada um de nós seja diferente do outro e tenha a sua própria individualidade. No caso do dinheiro, ocorre a mesma coisa. Do ponto de vista da Psicanálise, temos desejos que conhecemos e outros que não. Nas palestras que dou, costumo apresentar o caso de um pai que gastava pouco e incentivava o filho mais velho a poupar. Mas esse mesmo pai tinha um desejo inconsciente de gastar dinheiro, de ter prazer em comprar… Isso acabou influenciando a filha mais nova a gastar muito.
Serviço
A Psicologia e o Seu Dinheiro, Claudio Bastidas, Editora Novatec, R$ 29.
Para saber mais sobre o autor, acesse www.consultorio paulista.com.