Comportamento

Companheiro da família

Franco Caldas Fuchs, especial para a Gazeta do Povo
30/06/2013 03:04
Leitores como a pedagoga Ivone Guerra, 58 anos, identificaram-se imediatamente com essa proposta pioneira de oferecer conteúdo exclusivo, ligado ao estilo de vida dos paranaenses. “Desde a década de 1980, acompanho a evolução do caderno, que sempre valorizou os profissionais locais. Em Pato Branco, especialmente antes da internet, ele era uma referência para vários assuntos”, diz Ivone. Em sua casa, nessa cidade no sudoeste do Paraná, a pedagoga montava pastas com os exemplares preferidos e aplicou vários projetos de decoração indicados pelo suplemento.
A imagem de Ivone devorando o Viver Bem, todo domingo, é marcante para a filha Vanessa, 35 anos. Com quase a idade do caderno, ela também se tornou uma leitora fiel. “Eu era criança e via minha mãe semeando essa leitura em nossa família. Aos poucos, fui gostando de acompanhar seções de saúde, moda e beleza. Hoje sigo muitas das indicações do caderno”, conta. A capacidade de mesclar “lazer e descontração” com “informações atualizadas” é, na opinião de Vanessa, uma das razões pelas quais o Viver Bem segue cativando leitores de várias gerações.
Parte da vida
O Viver Bem também se mistura com a vida do casal Ronaldo Pizzo, veterinário, 55 anos; e Ana Maria, engenheira, 50 anos. Em 2008, ao completar 50 anos, Pizzo se viu “retratado” ao longo da edição especial de 25 anos do caderno. Isso graças a Ana. Ela adaptou a edição ilustrada como um scrapbook, com “25 ideias para se viver bem”, substituindo as imagens originais por fotos de Ronaldo e da família. “Os textos que estavam lá com nossas fotos me fizeram pensar e modificar várias coisas na minha vida”, diz ele. “Levei uns 10 dias confeccionando esse book. Com ele revimos nossa trajetória”, afirma Ana.
Leitora do suplemento desde a década de 1990, a engenheira usa as dicas do caderno até para o cachorro da família: o maltês Bob. Para Pizzo, que aproveita muitas orientações do caderno, sejam de moda masculina ou de gastronomia, o Viver Bem se destaca por manter uma identidade paranaense. “Ele é muito voltado para a nossa cultura. Gosto dele por sentir essa identificação.”
De década a década, suplemento se reinventa
De domingo em domingo, década a década, o Viver Bem vem registrando as transformações nas áreas de comportamento, saúde, decoração, moda e beleza. Em 3 de julho de 1983, encartada na Gazeta do Povo de domingo, a Revista da Tevê estampou em sua capa a atriz Regina Duarte. Mas, para além das notícias de novela, quem folheou o impresso com atenção viu nascer uma seção de duas páginas chamada “Para Viver Bem/ Para Morar Bem”, criada pela jornalista Nereide Michel. Na primeira edição, alternativas para se cuidar melhor da saúde do cabelo, combater a umidade de casa e substituir o consumo de pão – na época inflacionado –, foram algumas das muitas dicas apresentadas aos leitores.
No domingo seguinte, o caderno deu seu primeiro passo no universo da moda, lançando uma ousada pergunta: “Como será o visual da mulher do ano 2000?” Na época, a “moda espacial” era apontada como tendência do futuro.
Ano a ano, a seção ganharia mais páginas – atingindo 28, em uma edição especial de Natal, em 1984 –, até virar de fato um caderno, batizado simplesmente como “Viver Bem”, em 1986.
Provando que o suplemento não era só voltado às mulheres, em 13 de janeiro de 1985, um homem estampou a sua capa. A chamada apontava a vaidade masculina como um fator de “sucesso”.
Fiel ao espírito do tempo, quando a datilografia era um grande diferencial profissional, o caderno mostrou tendências como a disseminação do uso de tênis, dos mullets e de todo o estilo new wave. Ao mesmo tempo, despertou a atenção dos pais, com matérias e colunas sobre o universo infantil.
Ousadias
Na década de 1990, o desejo de surpreender os leitores foi uma constante. O editorial de 14 de julho de 1991, por exemplo, trouxe fotos de modelos desfilando pela Rua XV vestindo, simultaneamente, maiôs que eram tendência no verão europeu, e capotes da moda brasileira de inverno. Na capa de 10 anos de circulação, publicada em 26 de julho de 1992, uma modelo usava um traje confeccionado em papel jornal, com edições do Viver Bem. E para celebrar 15 anos de circulação, na edição de 17 de agosto de 1997, o suplemento chegou a organizar um desfile de moda competitivo, com jovens de 15 anos.
A cobertura de moda se aprofundou e o caderno acompanhou eventos importantes surgidos naquela década, como Semana Leslie de Estilo, no Rio de Janeiro; Phytoervas Fashion e Morumbi Fashion – rebatizado depois como São Paulo Fashion Week.
A produção de “dossiês” sobre diversos assuntos foi igualmente marcante nos anos 1990. Capas sobre “o uso e as origens do chapéu”, “a importância do pinhão na cultura paranaense” e sobre “os estilos consagrados de decoração” são exemplos dessa preocupação em fugir do senso comum. Na área de saúde, consolidaram-se reportagens e colunas de especialistas, que respondiam a dúvidas dos leitores.
Universo digital
Destacando a conquista de espaço dos afrodescendentes na mídia, e aproveitando a descoberta de que o mais antigo fóssil humano brasileiro tinha traços negros, a primeira edição do ano 2000, em 2 de janeiro, foi inteiramente dedicada à beleza negra.
Ao longo da década, o caderno se aprofundou na área de estética, e se tornaram mais frequentes reportagens sobre produtos cosméticos, cada vez mais abundantes e avançados.
Na moda, acompanhou a efervescência do período. Registrou a ascensão de tops como a curitibana Isabeli Fontana (capa da edição de 6 de fevereiro de 2000), assim como de estilistas locais como Silmar Alves e Jefferson Kulig. Com os avanços da internet, o caderno foi capaz de monitorar e traduzir com rapidez as tendências internacionais, sejam de moda ou comportamento.
A edição de 6 de julho de 2003, cuja capa tratava sobre a popularização da ioga, marca um novo rumo para o Viver Bem, com a jornalista Dani Brito como editora. A proliferação de homens assumidamente metrossexuais ou gastrossexuais (especialistas em culinária para conquistar mulheres), as novas configurações familiares, assim como o surgimento de relacionamentos pela internet, são alguns dos fenômenos registrados na época. A interatividade com os leitores foi outro marco. As matérias passaram a informar o e-mail dos repórteres, e eram bastante comentadas no site da Gazeta do Povo.
Em 2011, o jornalista Roberto Couto assume a edição do suplemento, que ganha novos ares. O Viver Bem passa a produzir ainda mais conteúdo on-line, também por meio de vídeos e das redes sociais.