Há quem ponha a culpa no tempo nublado, na correria da vida ou na poluição luminosa, que, realmente, ofusca o brilho de tantas estrelas. O fato é que uma grande maioria parece ignorar a beleza do céu e só dá bola para ele em ocasiões mais óbvias – diante de um pôr do Sol arrebatador, por exemplo. Ou nem assim. Apesar disso, a todo instante acontecem fenômenos celestes espetaculares bem acima de nossas cabeças. Vistos, porém, por uma minoria de pessoas que ainda cultiva o hábito de olhar para o alto com atenção. É gente que vê de cometa a disco voador, e que encontra no céu inspiração e orientação.
Para Anderson Bogéa, filósofo e professor da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), a displicência do cidadão urbano em relação ao firmamento se relaciona também com a falta de um “ócio produtivo”, muito falado, mas pouco praticado no mundo contemporâneo. “E, por diversas razões, olhamos cada vez mais para frente, ignorando também quem está ao nosso lado. Mas, independentemente dos motivos pelos quais deixamos de observar o céu, o fato é que deixamos de nos perceber como seres complexos e constituintes dessa ordem celeste”, reflete Bogéa. Diante dessa constatação, o Viver Bem faz a seguinte proposta: que tal olhar para o alto, e de um jeito diferente? Exemplos de outras visões possíveis você confere a seguir.
Inspiração que vem de cima
Autor de músicas como Turistas Espaciais, o cantor Paulo Nadal, 38 anos, da banda de rock Mordida, é fã do céu curitibano. No momento, até compõe uma canção que fala deste “céu suave”. “Gosto daquele céu esbranquiçado, quando a luz chega difusa, dissipando as sombras. Isso é tão comum que, quando o Sol aparece, as pessoas se sentem em estado de graça.” Além de trazer inspiração, o firmamento o faz se sentir ligado ao universo. “O céu noturno é um vislumbre do infinito. Nos faz pensar na vida com mais amplitude e serenidade. Não são à toa as referências ao céu presentes na Bíblia.” Nascido no dia do disco voador, 24 de junho, ele também admira esse aspecto fantástico do céu. “Quando criança, em Florianópolis, eu estava brincando no pátio até que olhei para cima e vi um disco brilhante. Chamei meu pai para ver, mas quando ele chegou, não havia mais nada. No dia seguinte, o jornal confirmou que várias pessoas tinham visto um objeto não identificado”. E, se em Curitiba, ele ainda não avistou nada do tipo, por outro lado, ele viu aqui um arco-íris inesquecível. “Nesse dia, avisei várias pessoas e tirei muitas fotos. Foi o mais intenso que presenciei.”
Sempre na mira
Se nascesse mesmo uma verruga no dedo de quem aponta para uma estrela, a mão de Lucas Pysklyvicz de Souza, 26 anos, seria “uma verruga só”. Apesar da poluição luminosa e do fato de que em Curitiba as condições ideais de observação surgem apenas 30 dias ao ano, esse físico e pesquisador em astronomia perdeu a conta dos fenômenos interessantes que observou na cidade. Um dos mais incríveis foi a passagem do cometa McNaught, em 2007. Algo que, para o seu espanto, passou batido para muitos. “Era fim de tarde, eu estava no bairro Santa Cândida e avistei uma parte da cauda do cometa a olho nu. O McNaught foi um dos mais brilhantes dos últimos 50 anos.” Segundo ele, alguém que observe melhor o céu em Curitiba também terá surpresas ao identificar estrelas cadentes, galáxias como a de Andrômeda, constelações como a de Escorpião, e planetas como Vênus e Saturno. “Sempre que revejo os anéis de Saturno no telescópio, eu me encanto.” O físico também admira o céu a partir de ângulos diferentes e mais privilegiados, algo que recomenda. A bordo de sua Variant, foi ao deserto do Atacama, no Chile, para posicionar melhor o seu telescópio, e pegou um avião para o Havaí só para observar, em junho, o trânsito de Vênus (de passagem em frente ao Sol). “Foi um prazer imenso, afinal, outro trânsito desse só em 2117! Quem viu, viu.”
A força que paira no ar
Há quem amaldiçoe os dias nublados, cheios de nuvens carregadas de chuva. Mas não a doutora em meteorologia Alice Grimm, 61 anos. “Gosto de olhar para esse céu ameaçador, com nuvens do tipo cumulonimbus. Você sente a força da natureza!”, diz ela, que é professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e uma das maiores estudiosas do fenômeno El Niño. Para Alice, o céu é um laboratório de trabalho, que emite sinais claros sobre o clima que virá, especialmente por meio das nuvens. “Se você vê nuvens cirros, esfiapadas, e há aumento de temperatura e ventos, isso indica geralmente a entrada de frente fria. E se vemos uma neblina forte pela manhã, é de se esperar um dia bonito depois.” Por causa da profissão, a meteorologista sabe que a sua percepção sobre o céu é bastante particular. “Geralmente as pessoas pensam no céu como algo que começa acima de nós. Mas, do ponto de vista meteorológico, o céu começa nos nossos pés, onde termina a grama.” Ela também ressalta que o homem tem responsabilidade sobre o céu que nos envolve. “Com a poluição e os gases de efeito estufa, ameaçamos a atmosfera, esse invólucro que torna a vida possível. A responsabilidade por um céu bonito e limpo também é nossa.”
Sintonia com o astral
Ao longo da década de 1970, trabalhando como piloto de avião, o argentino Patricio Duprat, 62 anos, via o céu de uma perspectiva privilegiada, porém não muito romântica. “Um piloto precisa olhar mais para seus instrumentos de navegação do que para o céu, senão pode ter problemas.” Após algumas reviravoltas na vida, porém, ele passou a olhar para o espaço de uma nova forma, através da astrologia. Diferentemente do que acontece na astronomia, em que o céu é analisado cientificamente, na astrologia ele é pensado “subjetivamente”, explica Duprat – astrólogo e diretor da Universidade Internacional da Paz-Paraná. “É como se um astrônomo olhasse para um carro e dissesse: fulano está viajando pela estrada X. Um astrólogo diz que o fulano está fazendo uma peregrinação espiritual.” Ao olhar, por exemplo, para a lua, Duprat se admira não só com a beleza do satélite, mas também com os efeitos que ele provoca. “As pessoas da cidade podem saber pouco sobre a lua, mas, quando ela está cheia, mexe com todo mundo.” Ele lembra que a lua sempre foi importante para diversos povos, tanto que a palavra “segunda-feira”, em vários idiomas, homenageia o astro – em espanhol, por exemplo, segunda é lunes. “A lua rege o estado de ânimo das pessoas e, a depender do posicionamento dela em relação a um signo, cria climas emocionais diferentes, mais racionais ou emocionais.”
À espera da grande nave
Um dos ufólogos mais reconhecidos no Brasil, o maringaense Ademar Gevaerd, 50 anos, já avistou discos voadores no deserto de Nevada, nos EUA, e no Pantanal. Mas confessa que ainda gostaria de ver, com seus binóculos, “uma grande nave” sobrevoando Curitiba, cidade em que reside desde 2008. Como editor da revista Ufo, Gevaerd recebe mensalmente, de vários cantos do país, inúmeros relatos sobre óvnis. Muitos deles vêm do Paraná. “Há vários documentos oficiais do governo que registram casos em Curitiba, especialmente na região do Bacacheri e do aeroporto Afonso Pena. Existem relatos de pilotos que foram seguidos por fortes luzes não identificadas, confirmadas por controladores de voo.” Gevaerd lembra da história de uma mulher que diz ter avistado um disco parado diante da janela do seu apartamento, na Rua Padre Anchieta. A quem não acredite em ETs e suas naves, ele recomenda que não se ignore a beleza celeste. “O céu é fonte de inspiração, é de onde tiro ideias. Olhar para a imensidão e perceber que existem infinitas civilizações de seres semelhantes a nós, em vários estágios de evolução, é algo que me fascina.”
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