Comportamento
Há pouco tempo, muitos aderiram à moda. As ecobags foram desenhadas por estilistas badalados, distribuídas como brindes, comercializadas em tecidos personalizados ou em material de reaproveitamento de cartazes. A ideia era diminuir o consumo das sacolinhas plásticas – opção para colocar as compras em quase todos os pontos de venda. Até um projeto de lei foi estudado. No entanto, hábitos – por enquanto imutáveis – têm levado todas essas ideias para o lixão.
Uma pesquisa realizada em 2010 pela Gatto de Rua, confecção especializada em soluções têxteis, revelou que em um grupo de nove pessoas, três têm ecobags. Mas, desse trio, apenas uma realmente vai às compras com as “sacolas verdes”. As mulheres são as que mais aderiram a estas sacolas.
No dia a dia, o esquecimento, a pouca praticidade para carregar uma ecobag e a preferência pelas sacolinhas plásticas para depois usá-las como saquinho de lixo são fatores apontados pelo consumidor como justificativas para a não utilização das sacolas de pano ou lona. “Eu venho direto do trabalho para fazer compras. Eu não carrego a sacola toda vez comigo”, afirma a contadora Irene Fonseca, 59 anos.
A situação das sacolas é algo cultural e comportamental. Isso dificulta a adesão à prática – que envolve mudança de hábito. Ana Flavia Godoi, professora adjunta no Curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), comenta que em outros países a submissão à lei já é algo enraizado culturalmente. Na Bélgica, por exemplo, separar o lixo de forma errada gera multa. A professora percebe que no Brasil é diferente: “Aqui, não usar as sacolas plásticas é sugestão, não regra. Se não houvesse outra opção, iríamos aderir, o que ajudaria a nos disciplinarmos para ações futuras”.
Ela acrescenta que não basta instituir uma regra se ela não vier acompanhada de alterações em todo o sistema. No caso, a coleta de lixo também precisaria ser repensada. Em países mais frios, a coleta por meio de containers, sem a utilização de sacos plásticos, é a opção adotada. Para um país tropical como o Brasil isso seria inadequado.
Flávia conta que na Europa, países quentes, como a Espanha, adotaram como medida higiênica um sistema de coleta subterrâneo. “Por meio de escotilhas nas ruas é feito o descarte de lixo. As tubulações subterrâneas sugam o lixo e, no caso de Barcelona, o encaminham para a separação.” Uma medida como essa exige alto investimento, mas, segundo Ana Flavia, poderia ser estudada.
Uma experiência fora do Brasil fez com que a estudante de negócios internacionais Mariana Oliveira, 22 anos, percebesse que era absurda a quantidade de sacolas que os brasileiros gastavam em uma simples ida ao mercado. “Em Paris, quase ninguém pega sacola plástica no mercado, ainda mais porque tem de pagar por ela. Se a pessoa vai despreparada para a compra (sem uma caixa, ou uma ecobag) elas levam o produto na mão ou dentro da bolsa – se for pouca coisa.” Mariana admite que desde o seu retorno ao Brasil está tentado ser mais econômica no uso das sacolinhas.
Alternativa
Nem sempre dá tempo para fazer as compras semanais. Carrinhos abarrotados para o estoque do mês são muito comuns. E como colocar tudo isso na sacola de pano? Uma sugestão adequada a esse costume é colocar as compras em uma caixa de papelão ou de plástico – que pode ser utilizada toda vez que se for ao mercado. O gerente do supermercado Condor Novo Mundo, Robinson Kosmenski, diz que alguns clientes já têm percebido as caixas de papelão como uma possibilidade real: “Quando o consumidor não traz de casa a caixa, ele pede para a gente”.
Sacolinha é lugar de lixo?
Cada brasileiro descarta 800 sacolinhas plásticas por ano, segundo dados do Instituto Akatu. Do ponto de vista de alguns consumidores, as sacolinhas são prejudiciais ao meio ambiente, mas não são de todo mal, já que ganham uma segunda utilidade em casa: acondicionar o lixo. A dona de casa Maria de Lourdes Dalport, 54 anos, tem várias ecobags, mas as utiliza pouco. Ela questiona sobre onde colocará o lixo se não tiver as sacolas trazidas junto com a compra. Ela diz que os sacos próprios para lixo são frágeis, rasgando facilmente. “As sacolas são mais resistentes. Eu prefiro”, afirma.
Plástico por plástico, os sacos de lixo são tão ruins quanto as sacolas. Com a onda dos biodegradáveis (produtos que se decompõe com a ação dos micro-organismos), sacolas e sacos classificados como tal poderiam ser utilizados sem peso na consciência, mas com moderação. “A composição do plástico biodegradável é segredo industrial, o que gera muita especulação quanto aos efeitos que poderá causar no ambiente. Enquanto isso não está claro, é preciso confiar na sua eficácia. Mas isso não significa que devemos utilizar o plástico sem limites”, diz a professora de engenharia ambiental Ana Flavia Godoi.
Legislação
Colunistas
Agenda
Animal


