Noite de quarta-feira. Boteco. Em desespero de causa, a repórter pede ao dono do estabelecimento a indicação de algum homem que goste de assistir a novelas. O solícito Zico vem logo com dois. A jornalista senta à mesa com um deles e seus amigos e o papo rola. “Gostava das antigas, hoje elas são ruins”, diz um. “Fulano não perde um capítulo”, entrega outro.
A conversa é animada. Até que eles ficam sabendo: a repórter precisa entrevistar um homem noveleiro para uma matéria da Gazeta do Povo. Balde de água fria. “Nem pensar”, diz um. “Difícil, hein, menina?”, desconversa outro.
Quase impossível. Mas os números do Ibope não a deixam desistir. Em 2010, 34,64% da audiência do gênero foi composta por homens, conforme o Painel Nacional de Televisão.
Persistência
Mensagens por celular, post no Facebook, ligação para o Ygor Siqueira, presidente da confraria dos Cavaleiros da Boca Maldita. Após muitas tentativas e negativas, a insistente repórter consegue três bravos representantes dos homens que, admitam ou não, estão ligados nas maldades da Norma (personagem de Glória Pires em Insensato Coração).
“Só não assisto quando estou muito cansado”, conta o assistente de farmácia Rafael Lachoski, 20 anos. Desde criança, ele acompanhava as tramas ao lado da mãe. Hoje é a namorada, a assistente de compras Rosilaine Moraes, 21, quem vê Morde e Assopra e Insensato Coração com Lachoski. Os dois comem na frente da tevê para não perder as mentiras de Guilherme (Klébber Toledo).
Rafael é um noveleiro tão assumido que topou fazer a foto que ilustra esta página. “Não tenho problema nenhum em falar. Isso não afeta a masculinidade de ninguém”, garante. E os amigos? “Às vezes zoam um pouco, mas nada que exceda”, conta tranquilo.
Com o jornalista Jair Marques, 33 anos, a turma pegou mais pesado. “O pessoal fez pressão para que eu não falasse”, ri. Ele é outro que tem a novela como herança de família. Lembra da clássica cena da briga entre Paulo Autran e Fernanda Montenegro na mesa de café em Guerra dos Sexos. E olha que tinha apenas 5 anos.
Hoje Marques assiste Insensato Coração com a mulher, a enfermeira Patrícia, e a filha mais velha, Manuela, 4 anos. “Muitas vezes tenho de mudar de canal por causa dela. Não me lembro dessas cenas fortes quando eu era criança”, compara. Quanto ao preconceito, ele diz que não está “nem aí”. “É uma visão ultrapassada. Pelo que eu me lembro, os homens assistem a novelas há muito tempo”, acrescenta.
E o escultor Luiz Gagliastri, 54 anos, é um exemplo. Fã do gênero desde Beto Rockfeller (1968) e O Bem Amado (1973), hoje ele está ligado nas tramas das 19 e das 21 horas. Também acompanhado da esposa, a designer de joias Fernanda, 39, ele gosta das histórias mais fantasiosas. “Minha obra é toda surreal”, justifica. Sua atual exposição “A Sonhar Venci Mundos”, que está em São Paulo, é baseada no livro Dom Quixote, “que não deixa de ser uma novela”, diz.
Quanto aos que não assumem o gosto pelos folhetins, Gagliastri atira: “É o machismo que existe na cultura brasileira. Um puritanismo disfarçado”.
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