Comportamento

Estacionamento de maridos

Érika Busani
19/08/2007 20:12
Basta um olhar mais atento durante o passeio ao shopping para reparar: enquanto as mulheres escolhem e experimentam roupas, muitos maridos permanecem confortavelmente instalados em poltronas ou sofás, ora sozinhos, lendo uma revista ou mesmo tirando uma soneca; ora domando os filhos para que a mãe tenha uns minutos de sossego e possa dedicá-los às compras.
É nos fins de semana ou noites de dias úteis que o fenômeno – batizado por nós de “estacionamento de maridos” – ocorre e as lojas que já perceberam a, digamos, má vontade com que os homens acompanham as mulheres nesses momentos investem em formas de atraí-los. O objetivo, claro, é manter a cliente mais tempo focada nas compras. “Se o marido não se sente à vontade, dificilmente quer ficar e a esposa acaba indo embora junto”, relata Vivian Yuri Mori, proprietária da butique Maria Bonita Extra. Pensando nos acompanhantes, há duas poltronas na loja e outras nos provadores, revistas, água e cafezinho.
Na Folic, os mimos vão além: chocolate, trufas, capuccino e até espumante para os maridos não se entediarem. O proprietário, Roberto Chreem, optou pelo tratamento vip por experiência própria: antes de ser lojista, é marido e sempre gostou de acompanhar a esposa nas compras. “Às vezes eu tinha de ficar do lado de fora, parado. Quando só há mulheres, você fica constrangido de entrar. E a Renata gosta de ter minha opinião”, conta.
O economista Alan Fuchs, 34 anos, e sua esposa, a médica Gabriela, 32, aprovam a estratégia da loja. “Acho bacana, gostoso fazer compras juntos. Ela se sente prestigiada de ver o marido perto, é sempre um momento prazeroso”, diz ele. “O Alan odeia ficar parado em pé. Se ele estiver confortável na loja, vai me ajudar e acho a opinião dele importante”, afirma ela.
Caso o ambiente de alguma loja seja “hostil”, Alan dificilmente deixa Gabriela sozinha e vai dar uma volta. Prefere convidá-la a irem juntos para outra. “Durante a semana nos vemos tão pouco, prefiro ficar com ela quando posso.” Ponto para quem já pensou no “estacionamento de maridos”.
Só cinco minutos
O comerciante Rafael Eduardo Andrioli, 28 anos, não suporta a idéia de acompanhar mulher em compras. “Odeio ficar esperando. Mulher tem de provar tudo, quer levar tudo, demora muito para escolher, entra em todas as lojas, leva o que não tem necessidade”, lista.
Das promoções, então, Rafael quer é distância. “Aí é que elas querem experimentar mais ainda, levar o que não precisa só porque está barato”. Ele conta que até entra em lojas femininas com a namorada: “Fico cinco ou 10 minutos, se ela não decide, saio fora. Volta e meia nos perdemos no shopping por isso.” Escaldada, ela prefere ir à compras sozinha. Talvez para não ouvir as frases normalmente ditas por ele: “Vamos embora! Por que tanta enrolação? Isso aí você não precisa!”
De acompanhantes a consumidores
Agradar aos maridos das clientes deu tão certo que a Bazaar Fashion começa a investir em coleções masculinas também. “Sempre procuramos fazer que a loja fosse amistosa para eles. No café, temos revistas e jornais, servimos capuccino, vinho, vinho do porto”, relata uma das proprietárias, Andrea El Omeiri.
O cuidado se estende aos provadores: uma pesada cortina de veludo separa a área da loja, preservando a intimidade da prova de roupas e permitindo que eles circulem livremente.
Nos eventos de fim de ano, quando os casais são convidados, há sempre um atrativo para os homens, como test drive de carros importados. “Há dois anos fizemos um evento muito bacana no dia das mães. Chamamos apenas os maridos das clientes para um desfile de roupas femininas, com degustação de vinho e charutos.”
De tanto circular por lá, os homens começaram a pedir produtos para eles também. A marca Hackamore foi a primeira a desembarcar nas prateleiras da butique curitibana. Jóias e relógios masculinos também são um atrativo. Em breve, as linhas masculinas da Forum e da Daslu vão completar o mix.