Comportamento

Hora de Mudar

Rodolfo Stancki
29/12/2013 02:08
A passagem de ano é celebrada de formas diferentes ao redor do mundo. Na China, costuma-se limpar a casa para afastar os maus agouros. Os cambojanos lavam os pés dos anciãos para demonstrar respeito. Na Espanha, come-se 12 uvas para dar sorte. No Brasil, a lentilha na ceia de réveillon é um sinônimo de fartura.
Não importa a tradição para a chegada de um novo ano, sempre há uma simbologia envolvendo uma mudança, na passagem do tempo e no próprio comportamento. Nesta época, as pessoas anseiam que o próximo ano seja melhor, repleto de energias positivas. “A sociedade fica contagiada por sentimentos de renovação de vínculos e reflexões. As pessoas aproveitam a folga do trabalho para valorizar o que realmente é importante”, observa o psicólogo Paulo Camargo, professor das Faculdades Rio Branco.
No Ocidente, essas perspectivas de mudanças para a virada de um novo ano são heranças do cristianismo, que celebra o nascimento de Jesus no Natal. Com o surgimento de um novo ciclo, muitas pessoas projetam transformações na maneira de se relacionarem com o universo.
A publicitária Sara Ortiz da Costa, 32 anos, pretende, em 2014, intensificar sua ação como voluntária. Há dois anos, ela concilia família, trabalho e a ajuda ao próximo em projetos como o Paz Sem Voz, do GRPCom, e o Centro de Ação Voluntária. Para o próximo ano, Sara planeja treinar para servir com a Defesa Civil do Paraná em situações de emergência, como a que assolou algumas cidades do litoral em março de 2011. “Quero estar ao lado das pessoas que precisam de mais ajuda, pois não há recompensa maior do que a gratidão”, diz.
A voluntária revela que o crescimento pessoal é uma consequência direta desse trabalho voluntário que pretende aprimorar. “Cada ação dá mais força para deixar os problemas de lado. Desde que comecei no voluntariado, nunca mais senti pena de mim mesma.”
Mudanças
A virada de um ano para o outro é o começo de um novo ciclo da Terra, que reinicia sua volta ao redor do sol. É um período que, historicamente, foi usado como intervalo entre as colheitas em regiões mais quentes, ou de reclusão nas mais frias. “No processo civilizatório, esta época se tornou um espelho da relação que a humanidade estabeleceu com a própria natureza. Não é por acaso que sentimos uma necessidade quase biológica de descansar no fim do ano, para renovar as forças com otimismo”, comenta a historiadora Maria Cecília Pilla, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Para mudar, as pessoas costumam deixar de lado os problemas que as afligiram durante o ano anterior. O passado não pode ser um peso na hora de projetar o futuro. Ainda mais se o próximo ciclo surge cheio de novidades.
Desde janeiro, a vida da administradora Elissa Creplive, 28 anos, mudou significativamente. Nos últimos meses, ela engravidou, casou-se e se mudou para o apartamento do marido, o advogado Wilson Koerich, 31 anos.
O próximo ano vem com a expectativa da chegada das gêmeas Laura e Julia, que entraram no segundo trimestre da gestação e devem nascer até junho.
“Às vezes parece que é mentira que minha vida vai mudar tanto”, confidencia.
Elissa afirma que, durante os próximos meses, suas metas são evitar o estresse que costuma trazer do trabalho e enfrentar a insegurança. “Tenho fé que as coisas darão certo.” Como se casou no início de dezembro, os preparativos para a chegada das filhas são outra etapa dos planos para o próximo ano.
Planejamento
Quem deseja ser melhor em 2014 não pode se esquecer de estabelecer uma estratégia para não acabar frustrado com os próprios planos. Para o psicólogo Ivan Gross, professor da FAE Centro Universitário, o primeiro passo dos que anseiam por mudanças é fragmentar o objetivo em várias etapas e ampliar o tempo esperado para conquistá-lo. “As pessoas não podem mudar tudo de uma vez só. É preciso ir com calma, pois se você se doa demais para ser melhor, pode ter a sensação de estar perdendo algo”, explica. Outra dica do profissional é reduzir a expectativa, pois dificilmente nos transformamos da água para o vinho.
Para o próximo ano, a cake designer Patrícia Zelleroff ambiciona mudanças importantes no seu cotidiano. A maior delas é a calma, que funciona muito bem na hora de fazer bolos de casamento para os clientes, mas falta nos momentos em que está longe da cozinha. “Costumo ser muito ansiosa. Penso demais no que tenho para fazer e fico muito nervosa. Isso me atrapalha”, conta.
Em 2014, ela também pretende expandir seus horizontes culinários e empresariais investindo em novos cursos profissionalizantes. Tudo para ampliar o desempenho de sua empresa, fundada logo após a morte da mãe, em 2011.
Mas talvez a maior mudança na vida de Patrícia nos próximos meses seja o casamento, marcado para setembro. No seu espaço de trabalho, uma foto com o noivo André Buckeriedge, 30 anos, a lembra de como sua vida será diferente em 12 meses. “Precisamos sempre estar prontos para mudar. O tempo passa muito rápido.” Os rituais de fim de ano estão aí para nos lembrar disso.