Comportamento

Lugar de mulher é na cozinha

Larissa Jedyn
26/06/2006 01:06
larissa@gazetadopovo.com.br
Se você estiver achando a colocação acima preconceituosa, um retrocesso em relação aos direitos femininos adquiridos, respire fundo – porque é a pura verdade. E olhe, que elas estão voltando para a cozinha felizes da vida. Tem mais: por vontade própria. Dão até risada de quem acha esquisito que elas se vangloriem de serem boas “pilotas” de fogão. Só que o regresso espontâneo não é aos panelões do arroz e feijão de todos os dias. Elas resolveram desbancar os chefs homens e provar que o toque feminino faz toda a diferença em uma boa refeição.
Se amor é tempero, as mulheres têm de sobra. Até na hora de cozinhar. “Mulheres cozinham com mais cuidado, com mais paixão. O lado do coração é mais forte”, comenta a chef Daniela Prosdócimo Caldeira. “Já não somos mais o sexo frágil. Se antes a cozinha era ambiente para eles, por causa das várias horas em pé, do cheiro de comida impregnado em tudo, do calor e do peso dos panelões, hoje fazemos tudo isso. É trabalho braçal mesmo”, comenta.
Além do mais, uma cozinha só de mulheres é bem mais descontraída. Tem conversa sobre dietas, cor de batom, criação dos filhos, em cima das cebolinhas cortadas e das labaredas que flambam as bananas… “A gente brinca muito, troca informações, receitinhas. Nunca houve brigas nesses dois anos no restaurante. E quando a coisa começa a pegar, apelamos para uma tacinha de espumante ou uma sobremesa de chocolate com frutas vermelhas. Isso melhora o astral de todo mundo. No dia dos namorados, por exemplo, o restaurante estava com três filas e reservas, o salão cheio… Foi uma delícia”, comenta Joy Perine, chef do restaurante Zea Maïs, que emprega quatro mulheres na cozinha.
Fora isso, elas juram ser mais organizadas que eles no trato dos alimentos. É uma noção que vem de casa, argumentam. Afinal, toda menina aprende desde cedo a lidar com os apetrechos da cozinha, os rituais de transformação dos alimentos. Nem que só por brincadeira. “Mulher tem mais sensibilidade, mais senso de organização. Eles podem até ser mais rápidos que nós, mas somos mais delicadas, organizamos melhor o espaço físico e a equipe”, comenta a personal chef Solange Trevisan Schneider.
Quem: Daniela Prosdócimo Caldeira, chef do Buffet La Table Gastronomie
O começo: “Eu entrei tarde nessa área. Sempre gostei de comer, de ir a restaurantes, meu pai sempre nos levou em viagens a restaurantes específicos, aquela coisa de ir a uma cidade por causa do restaurante… Meu marido foi fazer um mestrado nos Estados Unidos e eu resolvi que estudaria para ser uma chef de cozinha”.
Lugar de mulher: “O trabalho feminino era cuidar da casa. Isso mudou. A mulher já não passa mais tanto tempo em casa, saiu para defender seu lado profissional, abriu o mercado da cozinha para homens e mulheres”.
Mercado: quando voltou dos EUA, a idéia era trabalhar com pâtisserie e boulangerie. “Mas o mercado pedia outra coisa e acabei entrando para o catering. É uma questão de adaptação. E os pães, que eram paixão, viraram hobby de novo.”
Criação: “Preciso colocar a mão na massa, inventar moda, sem pressão; colocando a criatividade em prática. Gosto de pensar na cor. Meu marido diz que sou sortuda, que o meu livro de cabeceira é de cozinha. De qualquer lugar pode vir uma inspiração”.
Quem: Joy Perine, chef do restaurante Zea Maïs
Equipe: além dela, Raquel Venanci de Conto, Juliana Marinho Berbert Claudine Carvalho, Neuci Jorge e Celina Rajaufkal.
O começo: a sopa com os aspargos da horta de casa feita pelos avós e a macerada de frutinhas vermelhas já apontavam o caminho para a cozinha. “Nunca imaginei essa vida. Mas aos 18 anos já tinha um restaurante. Naquela época não havia glamour nenhum em cozinhar. Era melhor dizer que eu era a dona do restaurante. Se dissesse que cozinhava e, mais, que gostava, lá vinham os outros com aquele olhar de pena…”
O empurrãozinho: “Quando comecei não havia uma escola de culinária. Vi um dia o chef Celso Freire na televisão fazendo um prato e resolvi ali que um dia trabalharia com ele. Acabei tendo aulas com ele no Centro Europeu, fiz estágio, e, quando fechei meu restaurante, ele me chamou para integrar a equipe do Zea Maïs”.
Em casa: lá, Joy quase não aparece na cozinha. “É pouca gente: sou eu, meu marido e dois filhos. Gosto mesmo é de cozinhar para muita gente. Agora se for uma festa, aí sim…”
Quem: Solange Trevisan Schneider, personal chef, proprietária da casa de massas Rosmarino e professora do Centro Europeu
O começo: “Foi em casa, cozinhando para os amigos. O lazer da família lá no interior do Rio Grande do Sul era todo em torno da mesa”.
O processo: veio para Curitiba há 14 anos, fez hotelaria, que na época era o que mais se aproximava da cozinha, já que seus planos eram de abrir um restaurante.
O outro lado da moeda: “Quando comecei eram poucas as chefs mulheres. Havia um certo preconceito. Hoje dou aulas no Centro Europeu e há uma presença maciça de mulheres na turma. Há um excesso de glamurização da profissão. Muita gente entra só por curiosidade”.
Especialidade: massas recheadas, entre elas o famoso ravióli com recheio de brie e pêra seca com molho de alho poró.
Criação: primeiro vem a idéia, depois vem o recheio, a massa que combina melhor (ela pensa na cor, textura e na ornamentação, já que trabalha com massas coloridas, listradas, desenhadas) e depois o molho.
Serviço:
La Table Gastronomie: Avenida Nossa Senhora Aparecida, 742, fone (41) 3274-0875.
Rosmarino: Rua Fernando Simas, 334, fone 3224-3010.
Zea Maïs: Rua Barão do Rio Branco, 354, fone (41) 3232-3988.