Comportamento

Madrugadas napoleônicas

Larissa Jedyn
28/08/2006 01:38
larissa@gazetadopovo.com.br
Certa vez, entrevistei o dono de um “império” de lojas de departamento de Curitiba. Me falava sobre a necessidade de se começar muito cedo o dia. Acordava às cinco da matina, jogava tênis e depois ia para o trabalho. Chegava junto com seus comandados na porta da empresa. Perguntado sobre para que tanto empenho, afinal sua vida “estava ganha”, a resposta veio na ponta da língua: “Deus ajuda a quem cedo madruga, minha filha”. Ele faleceu alguns anos depois da nossa conversa e o império ruiu. Acho que ninguém tinha aprendido a lição do patriarca. Outros anos se passaram e a história sobre os madrugueiros caiu outra vez nas minhas mãos. Agora para falar sobre gente que se encanta com a alvorada.
Para o metabolismo do corpo, na prática, desde que se durma o número de horas suficientes para recuperar as energias e se alimente adequadamente, não importa a que horas se durma ou se acorde, explica Henrique Suplicy Lacerda, médico endocrinologista e professor da UFPR, ele próprio um madrugador, que faz ginástica às 6 horas, três vezes na semana. “Isso é uma questão muito pessoal. Mas em média se necessitam oito horas de sono por noite. De resto, é uma questão de hábito”, diz, lembrando Napoleão Bonaparte. O estadista dormia muito pouco: suas reuniões se arrastavam até a meia-noite e às quatro ele já saia batendo na porta dos seus comandados para pensar nas próximas ações…
Um estudo da Universidade de Surrey, na Grã-Bretanha, parece ter encontrado uma ligação entre a preferência pelas manhãs ou noites e um gene chamado Período 3. O gene é um dos envolvidos na regulagem do relógio biológico do corpo humano e aparece em duas versões – uma curta e outra longa. Os pesquisadores descobriram que pessoas com preferências extremas pelo início das manhãs têm mais chances de ter a versão longa do Período 3. Já os que preferem as noites têm mais chances de possuírem a versão curta do gene. “Ainda não se sabe de que forma isso se dá exatamente, mas percebe-se que há realmente um traço hereditário nessas preferências, uma vez que é bem comum encontrar famílias inteiras com uma mesma dinâmica. Pode ter a ver com educação, mas não é só isso”, afirma a psiquiatra Gisele Minhoto, neurofisiologista especialista em Medicina do Sono.
O escritor paranaense Miguel Sanches Neto, 41 anos, se auto-intitula um “maníaco das madrugadas”. Acorda todos os dias por volta das 3h30. Desde criança é de dormir pouco.
O padrasto botava todo mundo para fora da cama antes do sol nascer, mas quando ele vinha, Miguel já estava desperto. “Depois me descobri um insone crônico.” No silêncio entre as 4 até as 8 da manhã ele se dedica à leitura em sua “biblioteca da insônia” ou a escrever. “Nessa hora se rende muito mais, o trabalho flui com facilidade e continuidade, sem que a realidade me solicite”, comenta ele, cujo hábito se assemelha aos de outros colegas como Ignácio de Loyola e Brandão e José Montello.
Sua rotina é impensável para um dorminhoco: depois de “trabalhar com as galinhas”, toma café com a família, caminha logo em seguida até perto das 8h30; às 12h30 já está rondando as panelas; dá aulas à tarde e algumas à noite, janta às 6h30 e pára de funcionar por volta das 20 horas. “Para mim, a noite é um ponto final. Já o amanhecer é a esperança, o recomeço. Fico ansioso pelas mudanças e pelas novidades que ela traz. Dormir é desperdiçar vida”, filosofa.