Comportamento

Manual de instruções masculino

Érika Busani
05/08/2007 21:29
É só dar uma passadinha na banca de revistas mais próxima e conferir: algumas publicações destinadas às mulheres estão a cada edição mais ousadas. De dicas simples de paquera e relacionamento às mais quentes sobre sexo, trazem “receitas” que lembram muito os livros de auto-ajuda. Será que essas dicas funcionam?
Para o psicólogo e psicodramaticista Marcio Araújo Busato, algumas delas são bem válidas. “Elas tratam da sensualidade de um jeito muito aberto, o que é interessante aqui em Curitiba, onde as pessoas são muito fechadas. Se a pessoa puder extrair disso alguma reflexão, é bom”, opina.
O perigo, para o psicólogo, é a leitora achar que seguindo o receituário, tudo vai funcionar como a revista promete. “O que funciona é próprio da espontaneidade e criatividade de cada um. As receitas devem ser assimiladas e transformadas dentro da pessoa”, diz. Outra ressalva é quanto à afetividade, que fica descoberta em meio aos conselhos voltados à conquista. “O terreno da afetividade é muito pessoal, um caminho de descoberta individual mesmo.”
Pedimos a três homens de perfis diferentes para opinarem sobre essas revistas. Confira o resultado.
Curiosidade humana
O mestre em assuntos literários Márcio Renato dos Santos, 33 anos, casado, vê a imprensa como “caixa de ressonância da sociedade”. “Se essas revistas existem, é porque tem público”, diz. “Mesmo que a pessoa não tenha aquele tipo de dúvida, vai ler para saber o que a revista diz. É questão de curiosidade humana, um tema primário para nós”, acredita. Para ele, melhor ter alguma informação que nenhuma.
Márcio faz uma ressalva às pessoas que usam as publicações como guia de comportamento. “O caminho deveria ser outro, pelo diálogo. Tem de haver naturalidade, não dá para forjar algo que não é.” Para ele, algumas dicas são mais ingênuas que ousadas. “Às vezes é muito bobinho. Na boa literatura – Prost, Guimarães Rosa, Sheakspeare – você entende mais dos humanos que nas revistas. Mas não condeno: quando estamos com algum problema, temos de buscar ajuda em algum lugar. Se a revista ajuda, é válido.”
Ousadas demais
Matérias sobre variedades superficiais, foco principal em beleza e sexo. O estudante de arquitetura Clareano Colemonts, 23 anos, solteiro e namorando, se surpreendeu com o conteúdo da revista. “Olhando por cima, não percebia que o foco no sexo era tão grande”, diz. Para ele, essas publicações são ousadas demais e não refletem a realidade das leitoras. “Não sei se as mulheres têm interesse tão grande assim. Em alguns assuntos, essas revistas são até mais ousadas que as masculinas.” Em sua opinião, algumas “receitas” até são interessantes, outras, “mirabolantes demais”. “Cada um tem suas particularidades, não existe um guia de instruções”, critica. “Fico me perguntando se as mulheres que lêem colocam em prática, acho difícil.”
Dicas válidas
“Tenho lido uma revista masculina que vai nessa mesma linha. Acho interessante”, afirma o médico Luiz Henrique Bigarelli, 41 anos, separado. Ele não acha as publicações ousadas. “A linha de sensualidade deve ter bastante público. Acho as dicas válidas porque as pessoas têm dúvidas e podem ficar constrangidas de perguntar para um médico.” Luiz Henrique também destaca a preocupação que as revistas têm de ouvir especialistas como um ponto positivo.
erikab@gazetadopovo.com.br