Comportamento

Moda “pés no chão”

Denise Drechsel
09/10/2005 17:01
denised@gazetadopovo.com.br
Dona de um currículo invejável, a jornalista espanhola Covadonga O’Shea é uma espécie de Costanza Pascolato de seu país, a Espanha. No Brasil nas últimas duas semanas a convite da ONG paulista Artemoda, O´Shea, editora por 27 anos da revista de moda Telva e hoje presidente do Instituto Superior de Empresa e Moda, traçou um panorama do mercado fashion mundial. “A moda do início do século 21 tem uma grande força. Ela é o motor de um complexo industrial, comercial e empresarial, que gera um volume de negócio de muitos milhões de dólares, euros, yangs – não podemos esquecer a concorrência das indústrias chinesas!”, brincou durante a conferência A moda nos séculos 20 e 21.
“As grandes empresas do setor estão reunindo vários estilistas para vender. Empresários como o francês Bernard Arnault, um dos figurões da moda atual, dono de grandes marcas como Christian Dior, Luis Vitton, Givenchy e Dona Karan, acreditam na criatividade da moda, mas com o fim de conseguir o maior número de clientes”, observa.
O mundo mágico das passarelas, segundo ela, não pode iludir nem consumidores, nem profissionais do outro lado do balcão. “O mesmo Arnault que bancou desfiles espetaculares como o de um John Galliano, conhecido mundialmente como uma espécie de louco, insiste que as peças de alta costura não podem virar objetos de museu. A partir do grande espetáculo das passarelas, como é óbvio, se tem por objetivo conseguir o marketing para vender não só roupas, mas sapatos, bolsas e acessórios”, diz. “E os estilistas sozinhos, sem um planejamento estratégico do mercado, sem opções inovadores para a mulher do dia-a-dia, não sobrevivem.”
O espírito crítico do consumidor, para ela, é capaz de mobilizar as grandes corporações do setor. “E vale tudo para convencer e vencer. A estilista Miuccia Prada, por exemplo, copiada por todos os chineses do mundo, oferece descontos de 30% a jornalistas, modelos e formadores de opinião. Mesmo que tenham mais dinheiro do que David Rockefeller (banqueiro), fazê-los usar Prada é uma grande política de marketing. Hoje as lojas Prada são verdadeiro monumentos de consumo. Quando se entra nelas é impossível não se questionar do que vivem estes empresários se a loja está sempre vazia? De puro marketing!”, alfineta.
Citando a sentença da estilista Coco Chanel, para quem a moda “deve fazer sorrir e não rir”, a intelectual defendeu a necessidade constante de procurar genialidade, lógica e arte no vestuário. “A moda é cambiante, é evolução, tem componentes de diversão, lúdicos, mas não é frivolidade. A era dos fashion victims está ultrapassada. A roupa expressa quem somos, nos vestimos de acordo com o que pensamos, com o trabalho que temos e os objetivos aos quais nos empenhamos na vida”, reflete.
Para Covadonga, o desafio da mulher do século 21 é se vestir com o cérebro. “Ela é empreendedora, responsável, independente. Bem vestida reflete um caráter equilibrado, autêntico e conseqüente com as próprias idéias. Estamos na era das mulheres que, para Karl Largerfeld ‘não correm atrás da moda, é a moda que corre atrás delas’ e para quem Armani afirma trabalhar, mulheres ‘que elegem o que gostam, incapazes de se impor qualquer coisa’. Numa palavra, é questão de personalidade”, finaliza.